O nascimento de um cinéfilo: uma autobiografia

Por Antonio Ricardo Soriano

Os filmes de Jerry Lewis, na Sessão da Tarde, as reprises de A Fantástica Fábrica de Chocolate ou, até mesmo, os antigos seriados de TV, como Viagem ao Fundo do Mar, me despertaram um grande interesse pelos filmes logo na infância. Aguardava com ansiedade a chegada das férias escolares para poder assistir aos muitos filmes que passavam no Festival de Férias nas tardes da TV. Isso nos anos de 1970 quando o VHS não havia chegado ao Brasil.

Quem me levou pela primeira vez ao cinema foi meu pai. Assistimos juntos Se Meu Fusca Falasse e filmes de Os Trapalhões em cinemas próximos de casa, como o cine Nacional (no bairro da Lapa) e os cines Haway e Flórida (no bairro de Perdizes).

Mas foi em 1980, quando eu tinha apenas 10 anos de idade, que a paixão pelo cinema se manifestou. Meu tio Gilberto me levou para assistir ao filme Xanadu, com Gene Kelly e Olivia Newton-John, no melhor cinema de São Paulo: o Comodoro Cinerama. Foi ali que tive pela primeira vez, a experiência do cinema espetáculo. Um musical maravilhoso visto numa tela gigantesca e com som de extrema qualidade, que só o cine Comodoro podia nos proporcionar. O filme me despertou a curiosidade de pesquisar sobre cinema, na época apenas em jornais e revistas.

Lobby card do filme Xanadu (1980)


Em seguida tive novas e agradáveis experiências no cine Comodoro, como as exibições de E. T. - O Extra-Terrestre, Tron – Uma Odisseia Eletrônica, Jogos de Guerra, Indiana Jones e o Templo da Perdição e De Volta para o Futuro. Nesse período, passamos a ter nas bancas de jornal, uma revista especializada em cinema, a Cinemin, que vinha do Rio de Janeiro. Uma excelente revista com rico conteúdo sobre as novidades do cinema e sua história.  

Interessante dizer, que talvez, aquela minha recente paixão pelo cinema acabou influenciando e motivando o meu tio Gilberto. Ele também se interessou mais por cinema e, a partir daí, passou a comprar livros, revistas e discos com a trilha sonora de filmes.

Meu tio Gilberto (in memoriam)


Passei a dividir a paixão pelo cinema com a música. Em 1981, uma grande banda de rock britânica veio pela primeira vez ao Brasil: era Freddie Mercury e sua banda Queen. O show foi transmitido ao vivo pela Bandeirantes FM e eu gravei tudo em duas fitas cassetes. O Rock & Roll passava a ser o meu ritmo musical preferido.

Em 1983, senti pela primeira vez a “presença da Força” assistindo ao filme O Retorno de Jedi no cine Ouro (no Largo do Paissandú), o sexto episódio da saga Star Wars. Precisei aguardar a reprise de Guerras nas Estrelas e O Império Contra Ataca pela TV aberta.

A curiosidade e as pesquisas sobre cinema aumentaram. Em 1985, tive a ideia de fazer um jornal sobre o tema, talvez, influenciado pelo farto material que meu tio havia adquirido. A ideia surgiu em um sonho e, ao acordar, fiz os primeiros esboços.  Algo bem simples, com colagens de notícias de jornais.

Apresentei o jornal aos meus primos Roberto e Marcos Gabler, que logo se interessaram. O Marcos já trabalhava na área de publicidade e se ofereceu para fazer o design gráfico do jornal. Estimulados, eu e o Roberto combinamos de pesquisar e redigir textos para o jornal que teve o nome escolhido no mesmo dia: Cine Fanzine.

Os números 1 e 2 do Cine Fanzine


Como ainda não existia a internet, essas pequenas publicações, chamadas de fanzine (fan + magazine) eram bem cultuadas.

O Cine Fanzine acabou ficando bem atraente e com bom conteúdo textual. O primeiro número foi lançado no início de 1986 e teve uma tiragem bem pequena que foi distribuída no Cineclube Oscarito. Em seguida, alguns exemplares foram enviados através de cartas aos associados do The Pictures Club, um fã-clube de cinema também criado por nós. Um exemplar do fanzine acabou chegando à redação de jornalismo da TV Cultura, que nos chamou para duas entrevistas: uma ao vivo, no programa especializado em cinema Imagem & Ação e outra gravada, no programa de variedades Panorama.

Entrevista ao vivo no programa Imagem & Ação da TV Cultura


O lançamento do fanzine culminou com a chegada do videocassete em minha casa. Que alegria! Começavam ali as maratonas de filmes durante os finais de semana. Cheguei a ficar sócio da recém-lançada 2001 Vídeo Locadora (na Av. Paulista) para locar clássicos do cinema. Os lançamentos ficavam por conta das locadoras do bairro.

Lançamos o nº 2 do Cine Fanzine em setembro de 1986 e já preparávamos o terceiro quando tivemos que cancelar o projeto por motivos profissionais. Um ciclo criativo de minha adolescência terminava cedendo lugar para a fase adulta.

Os anos de 1980 trouxeram experiências inesquecíveis para determinar a minha personalidade. Período em que tracei rotas para a minha vida. Foi quando conheci minha esposa - paixão relâmpago!

Infelizmente, em seguida, perdi minha querida mãe. Sem dúvida, os anos de 1980 sedimentaram minha personalidade com experiências boas e ruins, que me prepararam para vida (que não é nada fácil!).

A partir dos anos de 1990, acompanhei com tristeza o fechamento de quase todos os cinemas de rua que frequentei e outros que acabaram mudando a programação para filmes pornográficos. A Cinemark trouxe suas micros-salas de cinema para os shoppings e, logicamente, não me encantaram. Passei um longo período longe dos cinemas, mas não das vídeo-locadoras. Acompanhei o cinema através dos lançamentos em VHS e, depois, dos DVD’s.

Os anos se passaram, casei e tive uma linda e encantadora filha. Foram anos muito felizes e também de muito trabalho.

Em 2003, tive a felicidade de começar a trabalhar na biblioteca do Colégio Dante Alighieri. Passei a ter acesso diário a muitas informações sobre cinema, música e artes em geral. Foi uma inspiração enorme para começar a concretizar mais uma grande ideia.

Sentia saudades daqueles incríveis momentos no cine Comodoro, lá nos anos de 1980, e a ideia de homenagear esse cinema passou a ser uma constante. Pesquisava na internet e não encontrava quase nada sobre o cinema.  Apenas dois textos incríveis: um do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho e outro do carioca e professor João Luiz Vieira.

O cine Comodoro Cinerama


A ideia inicial era pesquisar e guardar tudo que eu pudesse encontrar sobre o cine Comodoro para mais tarde publicar um livro.  Em 2007, minha amiga bibliotecária e escritora Roseli Pedroso, mostrou-me a ferramenta Blogger para a criação de blogs. Ela estava criando o seu blog sobre o tema Biblioteconomia, o Bibliotequices & Afins.

Era o que faltava para se homenagear o cine Comodoro! Rapidamente comecei a criar o meu primeiro blog.

Minha esposa iniciou uma Pós-graduação no Mackenzie e passei a levá-la. No aguardo do término das aulas, aproveitava o tempo livre para fazer pesquisas na biblioteca de arquitetura da universidade. Foi quando consegui um volume enorme de fotos e informações sobre os antigos cinemas de São Paulo. Já apreciava o tema há muito tempo, desde 1990, quando Inimá Simões lançou o seu livro Salas de Cinema em São Paulo.

Fiquei fascinado com a qualidade do material adquirido e a ideia de homenagear o cine Comodoro se ampliou.

O blog, agora, passava a contar a história de todos os antigos e atuais cinemas de São Paulo. O blog Salas de Cinema de São Paulo acabava de ser criado!

O início foi muito difícil. Tinha muito material e pouco tempo para publicar. Tive que fazer uma grande mudança no blog: dividi-lo em dois - ou melhor, criar mais um: o blog Salas de Cinema de São Paulo - Banco de Dados. Não dava para misturar as informações de cada cinema com textos (crônicas, memórias, biografias, etc.). Demorou um ano para que o layout dos dois blogs fosse concluído.

Tenho muito orgulho de ter criado os blogs Salas de Cinema de São Paulo! As páginas já possuem uma quantidade enorme de informações sobre a história dos cinemas de São Paulo e são cultuadas por pesquisadores, universitários e amantes da sétima arte.

Recentemente, no final de 2013, voltei a frequentar os cinemas, dessa vez como terapia. Andava triste devido a alguns problemas particulares e precisava me distrair um pouco. Passei a frequentar os cinemas da região da Av. Paulista semanalmente nos dias do rodízio do meu carro e, adorei a ideia!

A experiência de assistir os filmes no cinema é infinitamente superior a assisti-los em casa.

Para melhorar ainda mais a experiência, dois cinemas que frequento, o CineArte (no Conjunto Nacional) e o CineSesc (na Rua Augusta) são cinemas como antigamente: originais, com plateia única, tela gigante e boa programação de filmes. Os problemas terminaram, graças a Deus, porém, a prática de ir ao cinema se manteve e me faz muito bem. Fica a dica para quem ficar ‘preso’ devido ao rodízio municipal de veículos: ocupe seu tempo numa sala de cinema.

Deixo aqui, nesse texto, um pouco de minha trajetória com o mundo do cinema. Um mundo de histórias reais e fictícias que nos emocionam. A chamada Sétima Arte que, para mim, é a soma de todas as artes!

Produção, divulgação e distribuição dos filmes brasileiros : erros e acertos

Por Edu Felistoque (Cineasta e produtor cinematográfico brasileiro).
Texto exclusivo para o blog Salas de Cinema de São Paulo.

No cinema, Edu Felistoque, produziu os longas ‘400 Contra Um, Uma Historia do Crime Organizado’ (2010), de Caco Souza e o documentário ‘Mazzaropi’ (2013), de Celso Sabadin. 
Dirigiu os longas ‘Soluços e Soluções’ (2000), ‘Inversão’ (2009) e os filmes da série cinematográfica ‘Trilogia da Vida Real’.

O cineasta Edu Felistoque

Insubordinados’ (2015), com roteiro de Silvia Lourenço, foi o primeiro filme da série ‘Trilogia da Vida Real’. ‘Toro’ e ‘Hector’, com roteiros de Júlio Meloni, respectivamente, segundo e último filme da trilogia, estreiam em 24 de novembro! 

Acompanhe os locais de exibição acessando e curtindo as páginas no Facebook:
> Toro
> Hector

Os filmes da série cinematográfica 'Trilogia da Vida Real'

Produção, divulgação e distribuição dos filmes brasileiros : erros e acertos

Para refletir sobre o problema de pouco alcance do público aos filmes brasileiros, mesmo com a produção de centenas de obras, temos que investigar as origens do tal problema que, em minha opinião, se definem nos 7 tópicos abaixo:

1.
O ‘Cinema Novo’, movimento cinematográfico brasileiro criado em 1952, foi necessário por gerar novas e geniais reflexões politicas. Suas produções ganharam prêmios em festivais e reconhecimento internacional, mas nasceu divorciado do grande público brasileiro, por causa da adoção de uma abstrata linguagem, causando uma forte rejeição por parte desse público. Ainda hoje percebemos essa rejeição quando falamos de cinema de arte ou, até mesmo, cinema brasileiro.

O cinema que mantinha um bom diálogo com o público, antes do movimento ‘Cinema Novo’, era composto de filmes populares, de entretenimento, na maioria comédias, como as famosas ‘Chanchadas’, brutalmente atacadas pelos ‘cinemanovistas’, que alegavam uma séria falta de identidade brasileira nos filmes ‘americanizados’ da época. Logo entraram em declínio e, mais tarde, deram lugar à teledramaturgia na TV.

A comédia, esse gênero bem mais ‘comercial’, faz ainda muito sucesso, mas utilizando-se de uma linguagem televisiva, junto de seu elenco conhecido, para que o público continue no clima e na linguagem das novelas de TV, já que está tão acostumado. O ‘Cinema Novo’ não poderia substituir as ‘Chanchadas’ e nem as ‘Chanchadas’ deveriam substituir o ‘Cinema Novo’, os dois movimentos deveriam conviver em paz até hoje!

2.
Exposição e imposição demasiada da linguagem cinematográfica americana sobre o público brasileiro, que acabou se acostumando com eles de tal forma que, hoje, causa-se estranheza e intolerância a outras linguagens, principalmente, a dos filmes brasileiros.

3.
Obviamente, como o cinema americano dá muito mais lucro aos distribuidores e exibidores de cinema e TV, esses não querem se arriscar e apostar em obras brasileiras. Isso também é reflexo da larga exposição de obras americanas em nosso território.

4.
Arrogância de muitos realizadores, produzindo e impondo filmes com linguagens inacessíveis do grande público. Precisamos pensar nosso cinema, também, como ‘produto audiovisual e de entretenimento’. Adoro filmes de arte e seus dramas existenciais, mas, por muitas vezes, as pessoas querem escapar da estressante vida moderna (ainda mais com esta recente crise politica e econômica), levar a namorada ou a família ao cinema, comer pipoca, dar risada, se divertir e emocionar-se. Não vejo nada de errado nisso!

5.
Faltam salas de cinema com preços mais acessíveis. O preço dos ingressos praticado pelas grandes redes de exibição é inacessível para muitas famílias. O acesso ao cinema deveria ser uma contrapartida direta a população mais carente, uma vez que os filmes nacionais utilizam verbas públicas para fomento, oriundas de impostos.

6.
A inexistência de uma séria e ampla divulgação dos nossos filmes.

7.
A falta de políticas públicas e de fomento para filmes brasileiros, nas fases de divulgação e distribuição.

O ‘Ministério da Cultura’ e a ‘Ancine – Agência Nacional do Cinema’ tiveram muitos acertos nos últimos anos, porém existem alguns erros pra corrigir. Por exemplo: em um edital de produção, o filme deveria, também, ser contemplado em um possível ‘pacote de produção’ que contasse com verbas de produção, divulgação e comercialização. Muitas produções ganham editais, são filmadas, editadas e finalizadas, mas, depois, ‘jogadas na gaveta’, porque não conseguem verbas para a importante divulgação e distribuição, tanto no cinema como na televisão.

Creio que muitos produtores pensam de forma equivocada sobre a relação entre custo e qualidade de produção, isso não procede! Um bom exemplo é o de nossos vizinhos argentinos que com seus filmes ‘pé no chão’, trabalham com orçamentos 50% mais baratos do que os brasileiros e seus filmes alcançam grande sucesso com o público local.  
Outros produtores praticam até hoje uma desnecessária ‘tabela de custos de filmes publicitários’ na produção de filmes de cinema. Além disso, administrar dinheiro público custa caro. Temos ainda um sério agravante: o interesse em lucro na captação dos recursos, já que está estranhamente ‘estabelecido’ que o cinema nacional não dá lucro!

Tive a felicidade de estudar em Cinecittá (Itália), aprendi e me inspirei com o ‘Neorrealismo Italiano’, movimento cinematográfico pós-guerra, que diante de uma Europa com dificuldades enormes, prioridades na saúde e na alimentação do povo, sem verbas para grandes cenários e equipamentos (parecido com o Brasil de hoje), cineastas criativos inventaram uma forma mais econômica e diferente de filmar, adotaram Roma como cenário para suas histórias, uma personagem sem igual. Criatividade em meio às dificuldades. Essa prática possibilita firmar novos negócios, inclusive com pequenos e médios empresários e, também, reduzir custos com cenografia e estúdios, já que todas as cenas são rodadas em locações reais. A ‘Spcine’ está trabalhando de forma positiva para o funcionamento de uma eficiente “Film Commission, que vai diminuir custos e viabilizar, com rapidez e sem burocracia, autorizações para filmagens nas ruas da cidade de São Paulo. Isso também é uma forma de divulgação e apresentação de nossas cidades e da nossa cultura. Os filmes da ‘Trilogia da Vida Real’ que dirigi (‘Insubordinados, Toro e Hector’), foram produzidos com esse pensamento, que surgiu na gênesis do roteiro do filme Inversão (com Gisele Itie, Wander Wildner, Tadeu Di Pietro e Marisol Ribeiro) e, depois, no inicio da criação dos roteiros da série televisiva ‘Bipolar (com Silvia Lourenço, Felipe Kannenberg, Priscila Alpha, Rodrigo Brassoloto e Sergio Cavalcante).

INSUBORDINADOS foi lançado em 2015 e, agora, estamos lançando os dois últimos filmes da trilogia, TOROe HECTOR.

Temos que passar logo essa fase, essa época difícil, onde alguns críticos e gestores culturais escolhem defender e apoiar, somente filmes de realizadores que compactuam com seus pensamentos políticos. Esse preconceito, assim como o de gêneros cinematográficos, tem que acabar logo. O não preconceito é moderno e produtivo e, além disso, não dispersa energia, pois já temos oponentes demais para digladiar, principalmente, os ‘blockbusters’, que não sou contra, mais sim a favor de termos uma programação semanal de filmes mais eclética e equilibrada, com muitos filmes brasileiros e outros de diversas nacionalidades (os chamados ‘filmes de arte’), junto das famosas produções norte-americanas.

A maior dificuldade do cinema brasileiro, sem dúvida nenhuma, é a falta de políticas que proporcionam levar, de forma mais barata, nossos filmes ao público brasileiro. Não precisa focar somente em salas de cinema, existe a TV aberta (já que é uma concessão) que deveria sim, ter uma lei de exibição de conteúdo brasileiro independente, como a lei da TV paga, nº 12.485. E tanto para a TV paga como para a TV aberta, deveríamos contar com uma significativa campanha de divulgação no próprio canal de exibição, com inserções na grade de comerciais, de chamadas e trailers de 30 segundos dos filmes à serem exibidos na grade de programação.

Já vejo como ótima iniciativa e, com bons olhos, o programa ‘Quero Ver Cultura’, a plataforma de vídeo por demanda que foi desenvolvida pelo Ministério da Cultura, com conteúdos audiovisuais nacionais, como curtas e longas-metragens, de ficção ou documentários, produzidos com o apoio de recursos da lei do audiovisual, que os beneficiários do ‘Bolsa Família’ terão acesso através de um conversor. Este projeto pode alcançar um público de até 60 milhões de pessoas. Só não pode exibir apenas filmes políticos ou ideológicos e, principalmente, não pode existir o protecionismo partidário dos programadores e curadores!

O ‘Circuito Spcine’ de salas de cinema, que prioriza a periferia, também é um ótimo exemplo para levar o cinema nacional ao público brasileiro.

As Leis de incentivo a cultura precisam, urgentemente, de amplas reformas. Existem muitas falhas acontecendo, uma delas é o equívoco de conceitos e interpretação das leis. O ato de financiar ‘show business’, com dinheiro de renúncia fiscal para fomento da cultura, chega a ser leviano.

Não sou totalmente contra a utilização de dinheiro público para o fomento do audiovisual brasileiro e, seguramente, afirmo que os produtores independentes não devem somente se ater aos mecanismos de fomento audiovisual, via leis de incentivo e editais. Precisamos lembrar que a palavra ‘fomento’ significa ‘estimulo’, aquilo que anima, que motiva à realização de algo, e eu compreendo que tal ‘ajuda’ serve como catapulta, o início de um negócio, que depois, com o tempo, deverá caminhar com suas próprias pernas, para poder gerar credibilidade do real sucesso, por mérito e não por ajuda política. Não podem existir paternalismos! Estou me referindo a uma indústria do ‘cinema independente brasileiro’ e não a uma ‘indústria de cinema dependente brasileiro’ e seus ‘efeitos colaterais políticos’.

As leis de subsídios não devem somente garantir a produção! O mecanismo das leis precisa criar pontes para levar o filme brasileiro ao seu público, mesmo que, para isso, tenhamos que produzir menos para exibir mais!

Grandes empresários da exibição cinematográfica: Eli Jorge Lins de Lima

Texto publicado na Revista Exibidor, em fevereiro de 2016.

Eli Jorge Lins de Lima, um dos maiores entusiastas do mercado cinematográfico

Sua trajetória profissional agrega mais de 50 anos.
Esta é uma homenagem da Revista Exibidor a Eli Jorge de Lins Lima ou "Seu" Eli, como era carinhosamente chamado pelo mercado.



O presidente da rede de cinemas Centerplex e presidente do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas do Estado de São Paulo - SEECESP, faleceu no início de janeiro de 2016 devido a complicações de um câncer. Nascido em 1947, na cidade de Bezerros (PE), "seu" Eli começou sua paixão por cinema já criança quando colava cartazes dos lançamentos em troca de ingressos, e, já na década de 1950, em São Paulo, conseguiu um emprego no antigo cine Cairo.

Entre 1960 e 1970, o executivo iniciou sua trajetória na área de distribuição ao entrar na Fama Filmes e chegou a atuar também na Condor Filmes e na Paris Filmes, onde permaneceu por 15 anos e chegou à função de gerente de vendas. Foi graças às muitas viagens que, "seu" Eli encontrou um cinema de rua fechado na cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Ele então decidiu assumir o espaço, reformá-lo e o colocá-lo para funcionar novamente. Esse primeiro cinema ficou ativo durante 28 anos.

Foi aí que nasceu a São Luiz de Cinemas, que depois trocou de nome para Centerplex, uma das 15 maiores exibidoras no mercado nacional.

O executivo ainda atuou no SEECESP, onde criou o Prêmio ED, que contempla as melhores práticas do mercado de exibição e distribuição desde 2008, e ficou conhecido por sua influência e liderança junto aos pequenos exibidores.

Agora o mercado brasileiro teve de se despedir de um profissional com mais de 50 anos de carreira e um dos maiores entusiastas do setor. "Seu" Eli será lembrado por exibidores e distribuidoras por seu otimismo e paixão pelo cinema.

Seu legado inclui também a atuação de dois filhos (Marcelo e Marcio Lima) que atuam no mercado, fruto de seu exemplo e dedicação.



Centerplex, um dos frutos do seu trabalho na cinematografia

Juntamente a outros dois sócios, "seu' Eli assumiu a difícil tarefa de reabrir um cinema em Poços de Caldas (MG). Começava ali a história da Centerplex.

Os anos passaram, um dos sócios faleceu e "seu" Eli comprou a parte do segundo sócio, ficando, portanto, sozinho para liderar o negócio e abrir outros cinemas de rua pelo interior de São Paulo e Minas Gerais. Assim foi a década de 80.

No início de 90, a empreitada já tomava corpo e a rede São Luiz de Cinemas contava com mais de dez cinemas. Foi então que a crise, originada pelo Plano Collor e pela popularização do videocassete, obrigaram o "seu" Eli a fechar as portas de boa parte dos espaços, ficando apenas com dois cinemas: Cine São Luiz (Poços de Caldas - MG) e Cine Vera Cruz (Capivari - SP).

Foram anos difíceis e de retomada para o setor como um todo, que tiveram novo fôlego com as exibições de "O Rei Leão" (1994) e "Titanic" (1997). O lucro obtido com a bilheteria destes filmes permitiu prospectar novos horizontes e reconquistar o mercado.

Na sequência, vieram outros cinemas de rua pelo interior: Atibaia (SP), São Lourenço (MG), Espirito Santo do Pinhal (SP), Mauá (SP) e São José do Rio Pardo (SP).



A marca "Centerplex Cinemas" surgiu quando o primeiro cinema localizado dentro de um centro de compras foi inaugurado, na ocasião o Shopping Center Lapa (São Paulo - SP). Foi neste momento que o "seu" Eli sugeriu mudar o nome da rede São Luiz de Cinemas para Center (centro) + Plex (complexos) e, então, nasceu a marca.

De lá para cá, novas inaugurações: Lavras (MG), Itapevi, Suzano, Mogi das Cruzes, Caraguatatuba (SP) e o nordeste brasileiro (Maracanaú - CE, Caruaru - PE, Fortaleza - CE).

Alguns cinemas fecharam e outros passaram por um processo de modernização para acompanhar a evolução do mercado. Assim, a rede conta hoje com 14 complexos e 54 salas espalhadas pelo Brasil. É da Centerplex, também, o primeiro cinema nacional a abrigar duas tecnologias de som imersivo em um mesmo complexo (Auro, da Barco, e Dolby Atmos, da Dolby Laboratories).

"Posso dizer que sou um vitorioso, conquistei meu espaço, tenho vários amigos, colaboradores e várias pessoas que me apoiam desde o início. Eu adoro cinema. Não me vejo fazendo outra coisa", disse "seu" Eli em uma das entrevistas à Revista Exibidor.

A paixão de Quentin Tarantino vai do filme às salas de cinema

Por Igor Kupstas
Jornalista formado pela Universidade São Judas Tadeu e Pós-Graduado em Marketing pelo Mackenzie. Trabalhou no site de cinema E-Pipoca, no Departamento de Marketing da Europa Filmes e foi Gerente de Marketing Digital da Mobz. Atualmente assume o cargo de Diretor da Distribuidora O2 Play.
igorkupstas@gmail.com

Em 2015, no recesso de fim de ano, passei uma semana em Miami, onde tive a chance de assistir à versão "Roadshow" do "Os 8 Odiados" (The Hateful Eight), novo filme do Quentin Tarantino, projetado em 70mm.

Roadshow - O cinema Teatral

O formato "Roadshow" se consagrou nos anos de 1950 em Hollywood e consiste em um lançamento limitado aos principais centros urbanos de um filme que, via de regra, era apresentado em um corte exclusivo, geralmente com algumas cenas extras, um prelúdio e um intervalo, e que depois era lançado no país todo, em um formato mais enxuto.

O prelúdio servia para colocar os espectadores no clima. Por uns 15 minutos, a audiência ouvia as principais músicas da trilha sonora antes do filme começar, no "Overture". O fim da música era marcado pelo abrir das cortinas no cinema e a revelação da telona. Um ritual que faz falta pra muita gente.

O filme parava durante a sessão para um intervalo, no qual as pessoas iam ao banheiro, comprar algo na bombonière ou fumar. Alguns filmes entregavam programas com informações sobre a produção.

O "Roadshow" nos EUA tinha lugares marcados em vários cinemas (antes disso ser comum), o ingresso era mais caro e as pessoas se vestiam bem, tal qual para ir à ópera. Aliás, esta mistura de experiência dos musicais e teatro era o grande diferencial, uma resposta ao começo da era do televisor e do home entertainment.

Curiosamente, eu me lembro, nos anos 80, quando eu tinha uns 9 anos, de ver o corte "Roadshow" no VHS duplo (ou triplo?) do filme "Ben-Hur" (Ben-Hur, 1960), o que não fazia nenhum sentido pra mim à época (e não faz muito até hoje). Em casa, ver uma tela parada por 10 minutos de música no Overture era um pedido para apertar a tecla FF.

A Experiência Tarantino

Desde o primeiro filme, "Cães de Aluguel" (Reservoir Dogs, 1993) a marca de Tarantino é a reverência a estilos, músicas e experiências cinematográficas. Pesquisador e fã voraz, Tarantino trouxe de volta o cinema independente, o pulp, o surf rock e atores engavetados. Um dos maiores defensores da película em Hollywood (juntamente a Christopher Nolan e Martin Scorsese), ele filmou "Os 8 Odiados" em 65mm, UltraPanavision, formato widescreen 2.76.1 que não era utilizado desde 1966.


Na sessão, o filme teve a abertura com a música de Ennio Morricone, o Deus das trilhas sonoras de faroeste, e um intervalo de 12 minutos em que eu sai e tive tempo de comprar pipoca. No total, o corte do filme teve 20 minutos a mais, com 6 minutos de cenas extras.

A sala, no entanto, não era uma gigante construção para 1000 pessoas como o antigo Astor, que eu tanto adorava na Avenida Paulista, mas uma sala típica de multiplex, o que me decepcionou um pouco. Eu esperava talvez algo na dimensão do Marabá, mas a experiência foi reduzida a uma janela diferenciada em uma tela comum. Confesso que me atrapalhou nos primeiros 20 minutos, mas depois eu mergulhei.

A Diamond, distribuidora do filme no Brasil, tentou reproduzir o processo por aqui, mas teve limitações técnicas, uma vez que praticamente não existem mais projetores 70mm no País.

Goste dos seus filmes ou não, são malucos como o Tarantino que lutam para manter vivas as tradições dos filmes que fizeram desta arte e do espaço do cinema um ambiente de devoção. E em tempos que muito se discute a "experiência cinematográfica", é interessante ver que muito do que se aponta como tendência era feito há mais de 60 anos. Assim como Tarantino faz com seus filmes e roteiros, todos podemos reciclar e trazer nossa paixão pela sétima arte de volta em seus mínimos detalhes, da película à cadeira, à tela. A diferença está nos detalhes.

Texto publicado na revista Exibidor nº 20, de Fevereiro de 2016.

70mm: o auge do cinema espetáculo

Por Filipe Salles (Fotógrafo e cineasta)

Foi inventado em 1929, ainda no cinema mudo, mas ficou esquecido e restrito até a década de 50. No início da década de 40, as pesquisas no campo da tecnologia de transmissão eletrônica de imagens já haviam chegado, nos EUA, a um grau de excelência que possibilitou a invenção da TV comercial. Num primeiro momento, este avanço não chegou a incomodar, mas já na década de 50, a TV representou para o cinema a inclusão de um concorrente direto e potencialmente promissor, e cuja consequência mais próxima seria sua extinção.

Levando-se em conta que o cinema era uma das maiores fontes de renda americanas, a televisão punha-se como um rígido anteparo ao avanço das produções em película, tanto pela comodidade de assistir filmes pelo aparelho de TV quanto pelo custo menor de uma produção eletrônica. Como em ambos, o interesse comercial era proeminente, a saída que os grandes estúdios encontraram foi a criação de sistemas impossíveis de serem reproduzidos em toda sua grandeza e magnitude pela TV. Em outras palavras, transformar o cinema num espetáculo insubstituível. Um deles foi a cor, outro, o som estereofônico e quadrifônico, e ainda outro, a retomada dos grandes formatos.

Surgiu daí o conceito de grande produção e da volta da bitola de 70mm. E, de fato, era realmente impossível reproduzir a experiência proporcionada pela sala escura numa projeção em 70mm, dada a qualidade da imagem e do som, que ainda hoje nenhuma outra bitola, tanto em película como em vídeo, jamais alcançou.

O 70mm representou o auge do cinema espetáculo nas décadas de 50 e 60 (a era dos grandes estúdios e das grandes estrelas) e as projeções de 70mm em telas gigantescas, sem dúvida, fizeram o cinema triunfar como indústria sobre a televisão, numa época em que a tecnologia eletrônica ainda era muito limitada.



Mas, mesmo hoje, com todo o aparato de vídeo de alta definição e avançados equipamentos, o 70mm ainda se afirma como o mais contundente espetáculo visual já criado, por uma razão muito simples: conforme se pode perceber na imagem acima, o 70mm é uma bitola com o dobro da largura do 35mm, e seu formato de 1:2,20 representa entre 3 e 4 vezes a área útil de um fotograma 35mm. Disso decorre a projeção de uma imagem extremamente nítida, de uma riqueza de detalhes impressionante e com possibilidade de ampliações muito maiores, sem perda de qualidade. A isso, acrescenta-se também o som quadrifônico, que em relação ao 35mm convencional, que, na época, era estéreo, permitia a inclusão de duas pistas de som a mais, e fazia do 70mm uma experiência extasiante.

E por que não se produzem mais filmes em 70mm? Porque são extremamente caros, com equipamentos muito maiores e cujo orçamento multiplica-se vertiginosamente em relação ao 35mm. Por este motivo, mesmo os filmes produzidos em 70mm são, na maioria, grandes épicos, cuja temática, evocando arquétipos heroicos de grandes personagens e histórias marcantes, garantiriam, na pior das hipóteses, um retorno aos milhões investidos nestes filmes. E, com efeito, os filmes mais caros da história foram estes, como Ben-Hur (William Wyler, 1959), Cleópatra (Joseph Mankiewicz, 1963 – provavelmente o mais caro filme já produzido), Os Dez Mandamentos (Cecil B. de Mille, 1956), El Cid (Anthony Mann, 1961) ou mesmo 2001 - A Space Odyssey (Stanley Kubrick, 1968).

Atualmente, o 70mm ainda encontra espaço em produções com fins científicos ou entretenimento puro, como é o caso do IMAX, que se utilizava da bitola deitada (agora a projeção IMAX é digital).

Mas a experiência de assistir a um destes filmes em 70mm levou muitos empresários a manter um arquivo de cópias em 70mm, principalmente na Europa e nos EUA, e que são exibidas periodicamente em salas específicas. Mesmo filmes produzidos originalmente em 35mm, como Star Wars ou Indiana Jones, também ganharam cópias ampliadas em 70mm, claro, sem a mesma qualidade, mas ainda assim sendo uma grande experiência.

65mm

Outro aspecto deve ser abordado em relação ao 70mm. Embora seja comum se referir a ele como 70mm, esta é na verdade a bitola de EXIBIÇÃO, e não a de CAPTAÇÃO. Isso se deve a motivos práticos. Os 5 mm (2,5 de cada lado) que se apresentam após a perfuração são dedicados às bandas sonoras magnéticas da cópia. Como não há registro do som na câmera, não é necessário este espaço depois da grifa e dos rolos de tração das câmeras. Portanto, a bitola das câmeras é 65mm, que são copiados numa bitola de 70mm para projeção. Dependendo do sistema utilizado, esta cópia pode ser ampliada, reduzida ou anamorfizada, como nos sistemas Panavision e Todd-AO.

Formatos para Bitola de 65/70mm

Janela 1:2,20 (1,912" x 0,870") – Formato Standard
Janela 1:2,35 (1,912" x 0,816") – 
Formato anamórfico antigo (até década de 70)
Janela 1:2,40 (1,912" x 0,797") – Formato anamórfico moderno

Entretanto, mesmo com tais recursos, o custo de uma produção desta magnitude era inviável para a maioria dos estúdios, de tal maneira que foi necessária a criação de sistemas alternativos. Tais sistemas, os formatos especiais, simulam diferentes formatos numa mesma bitola, ao ponto de permitir, com algumas restrições técnicas, um formato próximo à proporção do 70mm numa bitola de 35mm.
Parte do texto Bitolas e formatos no cinema, de Filipe Salles.

Novo filme de Tarantino será exibido em 70mm

O próximo filme de Quentin Tarantino já tem data marcada. Segundo a Weinstein Company, o lançamento de "Os Oito Odiados" está previsto para 25 de dezembro nos Estados Unidos e vem com novidade: o faroeste ambientado no pós Guerra Civil será exibido, durante duas semanas, em formato 70mm. A ideia é distribuir as cópias digitais somente a partir de 8 de janeiro. No Brasil, o longa terá distribuição da Diamond, ainda sem data de estreia, e deve ser lançado direto no formato digital, devido à inexistência de salas com projeção nessa bitola.

A decisão radical de explorar o 70mm, hoje uma raridade nos cinemas do mundo, foi do próprio diretor, famoso defensor da película. Esse não é o primeiro lance polêmico envolvendo o projeto. Em 2014, ainda em fase de desenvolvimento, Tarantino assistiu ao vazamento de seu roteiro original, que logo depois foi publicado no site Gawker.




Depois de promover uma leitura pública do script, o cineasta chegou a desistir do filme, mas voltou atrás e decidiu retomar o trabalho após mudanças drásticas na história. Samuel L. Jackson, Kurt Russel, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demian Bichir, Tim Roth, Michael Madsen e Bruce Derne estão no elenco principal.
Texto publicado no Portal Filme B, em 12/06/2015.

Leia, também, o texto Cinemas de rua com 70mm, de Paulo Roberto Elias.
Conheça tudo sobre o formato 70mm no site In70mm.com.

Abaixo, antigas exibições em 70mm na cidade de São Paulo :


Profissionais da exibição: Eder Delatore, projecionista


O homem que faz os sonhos girar
Por Rafael Amaral (ramaral@jj.com.br)
Texto publicado no “Jornal de Jundiaí” em 06/01/2013.

Eder é projecionista e, do alto da cabine, coloca diversos filmes que fazem a alegria e leva muita gente às lágrimas. Ele descobriu o cinema aos 9 anos.



O trabalho de Eder Delatore se dá em uma sala escura, rodeado por máquinas, com um pouco do som que vem de fora. À sua frente, depois de um vidro, há uma tela grande, um pouco distante, com imagens e sons responsáveis por fazer muita gente sonhar por horas. É a sala de cinema.

Eder é quem faz todo aquele espetáculo funcionar, o filme girar, dos bastidores, e com grande responsabilidade. O jovem projecionista se despregou do cinema durante alguns anos, mas acabou voltando. Não teve jeito: cinema, ele diz, é uma paixão.

Na sala de projeção, Eder trabalha com o filme em película e em formato digital. Aprendeu a lidar com as duas formas e não se intimida. Quando necessário, está em mais de uma sala ao mesmo tempo, às vezes em três, às vezes em até sete com a película e o digital.

Do alto, onde fica, consegue ter uma ideia se o filme agrada o público ou não. Alguns filmes têm pregado as pessoas à poltrona por quase três horas, como “O Hobbit”. Outros, como “Ted”, fez com que gente – acompanhada de crianças – deixasse a sala.



Ver filmes? “Dá para ver muitos a partir da sala de projeção, mas o ideal é ver da poltrona do cinema mesmo”, explica. “Além disso, às vezes precisamos sair da cabine, estar atento a outras coisas, em outros locais”.

Eder não se recorda do primeiro filme que projetou sozinho em Jundiaí. Após trabalhar por um ano como porteiro do Moviecom, ele subiu alguns degraus e foi para a sala de projeção. Passou por aprendizado e, na companhia de outros funcionários, fez a máquina de sonhos girar. Era a época de “Avatar”. E Eder, lá no alto, com os olhos pregados na tela, viu o quanto o filme de James Cameron arrancou suspiros do público.

Eder Delatore deixou a Moviecom Cinemas em 2013, para se dedicar ao um lindo projeto que conheceremos a seguir.

Passado

Foi outro filme de Cameron, em 1984, que fez Eder descobrir o cinema. Certo dia, em Santa Adélia, cidade onde cresceu e onde vivem seus parentes, Eder decidiu mudar o caminho da escola. Tinha apenas 9 anos. “Decidi virar e ir para outro lado. Foi quando me deparei com aquele cinema e com o cartaz de ‘O Exterminador do Futuro’, uma descoberta”.

A vida do menino começava a mudar. Logo chegou a hora de contar a descoberta para a mãe, que, crente em Deus, achava que aquela coisa de cinema era meio chegada ao pecado. E o filho sequer tinha entrado na sala.

O menino voltou a passar pela frente do cinema, chamado Cine São Paulo. Certa vez, parado nas grades da portaria, um dos funcionários do local, cujo apelido era Chita, convidou Eder a entrar. Quando finalmente ele pôs os pés na sala do cinema, Eder ficou deslumbrado: a grande tela, na qual passava “Hércules e os Gladiadores”, dava a impressão que ia engoli-lo.

“Naquela mesma sessão, no escuro, alguém puxou meu braço”, recorda. Era um de seus tios, com quem ele terminou de assistir o filme. Daí para frente, não parou mais.

De tanto frequentar o Cine São Paulo, Eder passou a trabalhar no local. Limpava o chão se necessário. Mais tarde, foi parar na sala de projeção.



À época, o equipamento ainda era movido a carvão. “Não que não existisse algo mais moderno, mas como era cidade do interior, as coisas demoravam um pouco”.

Mais velho, Eder se recorda das vezes em que teve de ficar até a madrugada no cinema, nas sessões de filmes pornôs. Os outros projecionistas eram casados e, por pressão das mulheres, não queriam trabalhar nessas sessões.

Um de seus filmes preferidos é “Platoon”, de Oliver Stone,  assistido em Santa Adélia, para onde ele pretende voltar em breve e onde, com outras pessoas, luta para reabrir o velho Cine São Paulo. “Todo comércio que abriu naquele prédio não foi para frente”, comenta Eder, fazendo planos para dar vida à sétima arte no local.

“O cinema é uma paixão. Aproveito meus dias de folga para ver filmes, mas dessa vez entre o público”.


Eder Delatore deixou a Moviecom Cinemas em maio de 2013, para se dedicar ao projeto de retomada e recuperação do Cine São Paulo, antigo cinema da cidade de Santa Adélia, onde trabalhou por toda a infância até a última sessão em janeiro de 1991.

Contate o Eder pelo Facebook, compartilhe e conheça melhor o seu projeto.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.