Comodoro visitado antes do incêndio

por Kleber Mendonça Filho ( jornalista e cineasta pernambucano. Seus filmes (curtas e médias-metragens) já tiveram passagens por festivais importantes no exterior como Cannes (Quinzena dos Realizadores), Clermont Ferrand, Huesca, Roterdã, Hamburgo, Brief Encounters (Inglaterra), Tampere (Finlândia), Cork (Irlanda), Uppsala (Suécia), Karlovy Vary (República Checa) e Interfilm (Berlim) e já contabilizam mais de 60 prêmios nacionais e internacionais. Mora no Recife e possui um site, o Cinemascópio)
Em uma sexta-feira, 18 de agosto de 2000, tinha acabado de chegar a São Paulo e fui visitar uma pessoa muito querida na redação da Folha de São Paulo. Saindo de lá, passei andando pela Av. São João e, como geralmente faço, fui até à fachada do cinema Comodoro Cinerama. A fachada era geralmente hostil, isolada por grades, cercas de arame e tapumes. Desta vez, havia um trabalhador na sala de espera e a grade estava aberta. Pedi para entrar. A sensação foi estranha, pois descobri que aquela rua imunda escondia um palácio intacto, de cores vermelhas maciçamente empoeiradas por dentro.
Foi uma emoção interessante entrar naquele lugar que, na verdade, não significava nada para mim no sentido de experiências pessoais (nunca vi um filme lá), mas tinha total consciência do que a sala devia significar para muita gente. Lembrei de todos os jornais de São Paulo, que vi ao longo da minha infância e adolescência, com os filmes que passaram lá anunciados, especialmente os exibidos em 70 mm. (Mad Max 2, A Filha de Ryan, Caçadores da Arca Perdida, E.T., são os que eu lembro), formato que caiu em desuso ao longo dos anos, e que viu seu fim no Comodoro, último cinema do país a exibir este formato grande.
O cinema estava intacto, como um lugar fechado há anos, muita poeira, mas INTACTO. Achei as cadeiras meio vagabundas, azul claras, obra dos anos 60. No entanto, descendo o auditório pelo corredor-rampa, impossível não babar ao olhar para a cortina vermelha em camadas, fechada. A tela era mesmo tão curva (Cinerama) que se você tocasse no centro da curva, teria que olhar para trás, por cima dos ombros, para ver as pontas da tela, esquerda e direita. Você sentia-se cercado pela tela de cinema. Se a imagem de qualquer atriz projetada naquela tela (Ornella Mutti me veio à cabeça) abrisse os braços, você se sentiria abraçado.
Afastei a cortina pesada e vi que a tela era aquela Cinerama original, toda em tirinhas, mais adequada para o formato que utilizava três projetores, já que a luz não refletia para fora da tela. A tela especial, no entanto, estava em frangalhos, como se "Freddy Krueger" tivesse passado a mão nela, desalinhada, destroçada. Escondida embaixo da majestosa cortina, no entanto, não fazia muita diferença, nem mesmo se existia uma tela ali.
De costa para a cortina, olhei o auditório, cercado de altos falantes (uma caixa de som estava jogada numa cadeira, na lateral) e procurei, no balcão (segundo andar de poltronas), as duas cabines extras de projeção, usadas para a tela tripla do Cinerama, que usava três projeções sincronizadas para formar uma imagem larga. Localizei possíveis pontos e realmente havia dois lugares que pareciam ter tido algo lá, mas não saberia precisar se realmente existiu, pois alguma reforma deve ter consertado a estrutura. De qualquer forma, imagino que o Comodoro tenha exibido aquele outro Cinerama, o Super Panavision 70. "2001 - Uma Odisséia no Espaço" deve ter passado lá, imagino o que não deve ter sido vê-lo lá.
Subi ao primeiro andar pela sala de espera (meio fantasmagórica) e entrei na cabine de projeção. Tomei um susto. Realmente, esperava ver um espaço vazio, sem projetores (pois sempre são as primeiras peças levadas do corpo de um cinema, como um coração arrancado rapidamente para transplante em outro paciente que ainda tem chances de vida). Não esperava ver na cabine, pedaços de rolos de cópias em 70 mm jogadas pelo chão. Havia metros da vinheta da UIP (United International Pictures) e partes de algum filme difícil de identificar (alguém nadando). Havia também diários dos operadores, com anotações de filmes exibidos.
Pois é, tudo isso e eu não tinha minha câmera fotográfica comigo, não peguei pedaços de filmes, nem os diários. Achei que poderia voltar lá, pois o trabalhador disse que estaria lá, ao longo da semana. Houve um incêndio no local, exatamente uma semana depois, foi quando perdi a oportunidade de registrar tudo que vi, exceto pelo que estou escrevendo. Me perturba observar que a pequena matéria na Folha de São Paulo, no dia seguinte do incêndio, não trouxe nenhum registro histórico. O Comodoro foi tratado como uma farmácia em chamas, ou uma antiga repartição destruída por uma enchente. Ironicamente, foi na Folha, onde havia me encontrado com uma pessoa muito querida, o jornal que publicou um texto desprovido de apego ao passado e à história.
É prova de que a memória coletiva é mesmo muito curta, sobre um lugar que foi importante para tanta gente e que, da noite para o dia, desaparece, sem nada mais. Não é síndrome de "Cinema Paradiso", mas vejo salas de cinema (especialmente as antigas) como monumentos à passagem do tempo, lugares impregnados de gente e suas histórias. Que, pelo menos, exista algum registro fotográfico. Essa parte é realmente triste. Será que alguém tem?
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.