A paixão de Quentin Tarantino vai do filme às salas de cinema

Por Igor Kupstas
Jornalista formado pela Universidade São Judas Tadeu e Pós-Graduado em Marketing pelo Mackenzie. Trabalhou no site de cinema E-Pipoca, no Departamento de Marketing da Europa Filmes e foi Gerente de Marketing Digital da Mobz. Atualmente assume o cargo de Diretor da Distribuidora O2 Play.
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Em 2015, no recesso de fim de ano, passei uma semana em Miami, onde tive a chance de assistir à versão "Roadshow" do "Os 8 Odiados" (The Hateful Eight), novo filme do Quentin Tarantino, projetado em 70mm.

Roadshow - O cinema Teatral

O formato "Roadshow" se consagrou nos anos de 1950 em Hollywood e consiste em um lançamento limitado aos principais centros urbanos de um filme que, via de regra, era apresentado em um corte exclusivo, geralmente com algumas cenas extras, um prelúdio e um intervalo, e que depois era lançado no país todo, em um formato mais enxuto.

O prelúdio servia para colocar os espectadores no clima. Por uns 15 minutos, a audiência ouvia as principais músicas da trilha sonora antes do filme começar, no "Overture". O fim da música era marcado pelo abrir das cortinas no cinema e a revelação da telona. Um ritual que faz falta pra muita gente.

O filme parava durante a sessão para um intervalo, no qual as pessoas iam ao banheiro, comprar algo na bombonière ou fumar. Alguns filmes entregavam programas com informações sobre a produção.

O "Roadshow" nos EUA tinha lugares marcados em vários cinemas (antes disso ser comum), o ingresso era mais caro e as pessoas se vestiam bem, tal qual para ir à ópera. Aliás, esta mistura de experiência dos musicais e teatro era o grande diferencial, uma resposta ao começo da era do televisor e do home entertainment.

Curiosamente, eu me lembro, nos anos 80, quando eu tinha uns 9 anos, de ver o corte "Roadshow" no VHS duplo (ou triplo?) do filme "Ben-Hur" (Ben-Hur, 1960), o que não fazia nenhum sentido pra mim à época (e não faz muito até hoje). Em casa, ver uma tela parada por 10 minutos de música no Overture era um pedido para apertar a tecla FF.

A Experiência Tarantino

Desde o primeiro filme, "Cães de Aluguel" (Reservoir Dogs, 1993) a marca de Tarantino é a reverência a estilos, músicas e experiências cinematográficas. Pesquisador e fã voraz, Tarantino trouxe de volta o cinema independente, o pulp, o surf rock e atores engavetados. Um dos maiores defensores da película em Hollywood (juntamente a Christopher Nolan e Martin Scorsese), ele filmou "Os 8 Odiados" em 65mm, UltraPanavision, formato widescreen 2.76.1 que não era utilizado desde 1966.


Na sessão, o filme teve a abertura com a música de Ennio Morricone, o Deus das trilhas sonoras de faroeste, e um intervalo de 12 minutos em que eu sai e tive tempo de comprar pipoca. No total, o corte do filme teve 20 minutos a mais, com 6 minutos de cenas extras.

A sala, no entanto, não era uma gigante construção para 1000 pessoas como o antigo Astor, que eu tanto adorava na Avenida Paulista, mas uma sala típica de multiplex, o que me decepcionou um pouco. Eu esperava talvez algo na dimensão do Marabá, mas a experiência foi reduzida a uma janela diferenciada em uma tela comum. Confesso que me atrapalhou nos primeiros 20 minutos, mas depois eu mergulhei.

A Diamond, distribuidora do filme no Brasil, tentou reproduzir o processo por aqui, mas teve limitações técnicas, uma vez que praticamente não existem mais projetores 70mm no País.

Goste dos seus filmes ou não, são malucos como o Tarantino que lutam para manter vivas as tradições dos filmes que fizeram desta arte e do espaço do cinema um ambiente de devoção. E em tempos que muito se discute a "experiência cinematográfica", é interessante ver que muito do que se aponta como tendência era feito há mais de 60 anos. Assim como Tarantino faz com seus filmes e roteiros, todos podemos reciclar e trazer nossa paixão pela sétima arte de volta em seus mínimos detalhes, da película à cadeira, à tela. A diferença está nos detalhes.

Texto publicado na revista Exibidor nº 20, de Fevereiro de 2016.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.