Julio Llorente e os primórdios do cinema em São Paulo (Cronologia)

Um pouco da vida de um jovem bilheteiro de cinema que passou a dirigir, em São Paulo, uma das maiores redes de cinemas da história da exibição cinematográfica brasileira: a Companhia Cinematográfica Serrador.

Segue abaixo uma breve cronologia de eventos importantes na vida de Julio Llorente:

16/11/1907
Inauguração do primeiro espaço dedicado, exclusivamente, a exibições cinematográficas, o Bijou Theatre, o primeiro cinema de São Paulo. O jovem espanhol Julio Victor Llorente, auxiliar de escritório, era o encarregado da bilheteria.

09/12/1909
Julio Llorente entrou para os escritórios da Companhia Cinematográfica Serrador, de Francisco Serrador. Começou pelo primeiro degrau a sua carreira e cada degrau seguinte que galgava, mais se consolidava o seu valor, tornando-se assim o orgulho de seu velho mestre Serrador, que, com o tempo, não hesitou em entregar-lhe a inteira direção de seus negócios em São Paulo, que em linha reta prosperaram, formando, para a época, uma grande corrente de cinemas.

1918
Fundou-se, em São Paulo, a famosa distribuidora de filmes, o Programa Serrador, também, dirigida por Julio Llorente.

1925/1926
Julio Llorente sugere (e Serrador concorda) que o Programa Serrador que, cada vez mais oferecia melhores filmes, tenha cinemas próprios para apresentar seus filmes: assim não dependeria de mais ninguém. Seguindo o plano traçado para isso é arrendado e remodelado o teatro Royal, situado na Rua Sebastião Pereira. A primeira base do plano do Julio estava feita. E, seguindo o que fora traçado, em 1926, Francisco Serrador e Llorente arrendaram o famoso Theatro Sant'ana, da Rua 24 de Maio.

1927
Surgem novos cinemas, engrandecendo de forma satisfatória o Circuito Serrador. Entre estes, o cine Capitólio, à Rua São Joaquim (que foi por muito tempo notável em São Paulo), o Braz-Polytheama e o Mafalda, no Brás.

1928
Mais um grande cinema para o Circuito Serrador, o monumental Odeon (na Rua da Consolação), com duas salas de exibições - Sala Vermelha e Sala Azul - totalizando 4530 poltronas. Nos altos do próprio Odeon teve a Empresa Serrador, com Julio Llorente à frente, o seu quartel-general.

1935
Fazendo concorrência a Julio Llorente surgiram, pelos anos de 1930 a 1934, duas novas empresas exibidoras, a Cine Brasil e a empresa de José B. de Andrade, com vários cinemas. O resultado da concorrência entre as três empresas surgiu afinal: o encarecimento dos filmes. A lei da oferta e da procura preponderou e disso quem tirava partido eram os distribuidores de filmes, cujas produções eram vendidas a quem melhor lance fizesse. Isso não era interessante para os três circuitos, sentindo-o menos o Serrador-Julio, que tinha filmes próprios. Resultado: na defesa de seus próprios interesses, os diretores dos três grupos reuniram-se para discutir o assunto, ponderando, sobretudo, quanto aos prejuízos que sofriam com a concorrência. Cartas na mesa! Julio Llorente, o bilheteiro do Bijou Theatre ganha a parada. Fica com todos os cinemas. Assim, ao final de 1935, Julio Llorente, praticamente senhor da praça, tinha às suas mãos os principais cinemas do centro e dos bairros.

1936
Surge um novo concorrente, um novo cinema, um dos melhores de São Paulo, o Ufa Palacio (depois, Art Palácio), o maior do Centro, de Ugo Sorrentino, distribuidor de filmes da Ufa de Berlim. Logo passou a fazer parte do Circuito Serrador, e foi Julio Llorente quem o inaugurou.

1943
Inaugurou dois gigantescos cinemas do Circuito Serrador: o Ipiranga (com 1936 lugares) e o Piratininga (com 4313 lugares).

1950
O grandioso cine Nacional, com 3300 lugares, é inaugurado em 27/03/1950, onde mais tarde sediou os escritórios centrais da Cia. Cinematográfica Serrador. A solenidade de inauguração iniciou-se com o descerramento de uma placa comemorativa (um "medalhão"), na sala de espera do cinema, homenageando Francisco Serrador. José Serrador, filho de Francisco Serrador, discursou agradecendo a homenagem prestada a seu pai.

José, filho de Francisco Serrador, discursa agradecendo a homenagem prestada a seu pai.

"Medalhão" em homenagem a Francisco Serrador

Entre Dna. Aida Llorente e Dr. Florentino Llorente, vemos José Serrador, filho de Francisco Serrador.


1951
É promulgada uma lei na Câmara Municipal de São Paulo dispondo sobre a obrigatoriedade das poltronas numeradas nos cinemas. Na época, Julio Llorente discorda e declara: "É evidente que a compra ou reserva antecipada de bilhetes numerados, duas, três ou mais vezes por semana, não pode ser feita pelo operário, comerciário, doméstica, bancário, etc., pois lhe falta tempo material para mais essa complicação em sua já complicada vida. Logo, as únicas pessoas que poderão auferir aquela vantagem, aparente, bem entendido, serão os abastados, os patrões, os chefes, os que dispõem do tempo de seus criados, empregados ou subalternos, em suma, de dinheiro para futilidades, seu ou dos outros".

1953
Sra. Aida Llorente, esposa de Julio Llorente, e sua filha Julia Quintino de Oliveira, organizam uma reunião beneficente com amigas, em prol das vitimas do então "flagelo nordestino".

1954
Julio Llorente é nomeado para o Conselho Consultivo do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas, juntamente com Paulo Sá Pinto, Antonio Barone, Emilio Peduti, Américo Lucas e Esteves Junior.

1960
Inaugura uma nova e ótima sala exibidora no Centro - o cine Rio Branco - oferecendo com ela ao público paulistano, a última inovação do cinema: filmes de 70 milímetros.

1966
A família Llorente é homenageada nos salões do Nacional Clube pela então Fundação Cinemateca Brasileira e Sociedade Amigos da Cinemateca. Estiveram presentes o então prefeito Faria Lima, o programador de cinema Dante Ancona Lopes, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a escritora Lygia Fagundes Telles, entre outras personalidades. Toda família Llorente esteve presente: Julio e Aida Llorente; Florentino e Teresinha Llorente; Jaime e Lídia Llorente; Julinha Llorente e seus filhos Paulo e Caio. Reconhecimento à família, pela contribuição dada à cultura cinematográfica em São Paulo e pela destinação dos cines Picolino e Scala para exibições de filmes de arte, promovidas pela Cinemateca.

Em seu discurso de agradecimento, Julio falou um pouco sobre seu pai: "Meu saudoso pai, Florentino Llorente, mais conhecido por Florete nas rodas intelectuais de Madrid e Bilbao, faleceu aos 37 anos de idade, em 1901. Foi poeta, teatrólogo e homem de imprensa. Ainda conservo um de seus dramas, em versos, 'La Mancha Roja', estreado em 1896 em San Sebastian, a bela cidade dos atuais festivais de cinema, e manuscritos de outras peças de teatro como 'La Regata', 'Pedro Roncal' e 'Magdalena', que deixou inacabadas. Naturalmente, já estava eu inoculado do pequenino vírus que contamina todo homem de espetáculos. O vírus fixou-se e fiz do cinema e do espetáculo a razão de ser de minha vida".

1979
Conforme relato de seu neto Rodrigo Havier Llorente, Julio Llorente faleceu em novembro de 1979. Tinha deixado de trabalhar a apenas alguns meses, mas sentiu muito a perda de sua esposa Aida, anos antes.

Este texto será sempre atualizado a medida que chegarem novas informações sobre Julio Llorente.

Julio Llorente e esposa Aida, e família de José Burlamaqui na inauguração do novo cine Paulista, em 1955




Alguns teatros e cinemas administrados pela Cia. Cinematográfica Serrador em São Paulo:

1908 - Teatro Colombo e Cinematógrafo Paulista;
1909 - Smart Cinema e Ola Giratória;
1910 - Politheama e Chantecler Theatre;
1911 - Radium Cinema, Ideal Cinema e Iris Theatre;
1928 - Odeon;
1930 - Paratodos e Santa Cecília;
1934 - Broadway;
1936 - Ufa Palácio (depois Art Palácio);
1939 - Bandeirantes e Universo;
1942 - Brasil (em Pinheiros);
1943 - Ipiranga e Piratininga;
1947 - Majestic, CruzeiroEsmeralda;
1948 - Vogue;
1950 - Nacional e Candelária;
1952 - Joia, Anchieta, Paris, Roma e Cine Mar;
1953 - São Sebastião e Arlequim;
1954 - Liberdade;
1955 - Paulista (Novo), Marrocos e Picolino;
1956 - Trianon;
1957 - Paissandú, Astral, Fidalgo e Boulevard;
1958 - Coral e Centenário;
1960 - Rio Branco;
1961 - Valparaizo;
1967 - Premier, Festival e Center;
1968 - Novo Cometa;
1977 - Senador.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.