Um cinema para o Brasil nos anos 20

Por Sheila Schvarzman 
Graduada em História pela Universidade de São Paulo Pela Unicamp, Tese de Pós-Doutorado sobre o crítico de cinema Octávio Gabus Mendes e o cinema de São Paulo nos anos 1920 - Professora titular do Programa de Pós Graduação em Comunicação Contemporânea da Universidade Anhembi Morumbi e de História do Cinema Brasileiro I e II na Licenciatura em Audiovisual do Centro Universitário Senac - Membro do Grupo de Pesquisadores de Cinema da Cinemateca Brasileira.
No Brasil, e mais especificamente em São Paulo, o cinema começou como um divertimento de feira, essencialmente masculino, e evoluiu para uma freqüentação proletária e popular no início dos anos 20, como em outras partes do mundo onde, com a sedimentação da linguagem cinematográfica a partir de *Griffith (1915), que deu aos filmes condições de contar histórias mais longas e concatenadas narrativamente, foi possível estabilizar o negócio cinematográfico. Com isso firma-se a indústria e sua produção em série, assim como se constitui uma rede estável de salas de exibição. O caminho e o formato que essas salas vão tomar dependem do espetáculo, ou seja, daquilo que mostram, mas antes de tudo, do público que se tinha por alvo atingir.
Tendo nascido essencialmente como uma curiosidade popular — ainda que desde o início tenha interessado a vários setores e tomado ramificações entre artistas plásticos, cientistas, médicos, educadores, políticos e revolucionários, como na Rússia —, com as possibilidades narrativas abertas pela linguagem cinematográfica a atividade tende a se dignificar através das novas histórias que passa a contar, atraindo o público burguês, o que demanda mudanças nas práticas de exibição. Os cinemas deixam de ser apenas grandes galpões que reuniam trabalhadores, e passam a ser também lugares de distinção, tomando o teatro e a ópera como seus paradigmas de luxo e organização. Nos anos 20, à idéia de divertimento se acrescenta a evasão. A isso correspondia também a mudança nos conteúdos e formas, o que levava à compreensão de que o cinema não era apenas um divertimento, mas também uma arte. Entretanto, nada disso tirou do cinema o seu caráter popular.



De uma forma ou de outra, isso também ocorreu no Brasil, e mais especificamente em São Paulo. Entretanto, se aqui em São Paulo, o cinema (a produção e a exibição) persistiu como uma prática de grande alcance popular, como acontecia em outras partes do mundo - tendo se transformado, nos Estados Unidos, numa importantíssima atividade econômica e cultural que contribuiu para a inclusão social de pobres e imigrantes - no Brasil esse possível amálgama não era visto com bons olhos.
Desde meados dos anos 20 jovens jornalistas cariocas como Adhemar Gonzaga na revista Paratodos e Cinearte, e Pedro Lima na revista Selecta, procuram incentivar a produção de filmes nacionais e a melhoria das salas de exibição através da "Campanha pelo Cinema Brasileiro". Em suas colunas, definem as imagens do Brasil que esses filmes deveriam veicular: modernização, urbanização, juventude e riqueza, evitando o típico, o exótico e sobretudo a pobreza e a presença de negros. As salas de cinema deveriam ser extensões desse mesmo projeto: atestariam o grau de desenvolvimento e civilidade de suas populações.
Assim, o cinema que se pregava constituir no Brasil nos anos 20 era avesso ao caráter popular, tanto nas imagens como na freqüentação, procurando incentivar os aspectos artísticos da concepção fílmica, o conforto e a opulência nas salas. Na direção inversa dos americanos que massificavam a atividade para torná-la cada vez mais rendosa e viável, os jovens de classe média que imaginavam um cinema para o Brasil pensavam-no como uma atividade artística dignificante para o país, e a sua freqüência, uma forma de diferenciação e distinção social. A produção cinematográfica brasileira padecerá dessa dicotomia ao longo de sua história — basta pensar nos embates contra a *Chanchada e as aspirações desmedidas da *Vera Cruz durante os anos 50.
Trecho do artigo “Ir ao cinema em São Paulo nos anos 20” da Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 25, n. 49, p. 153-174, 2005, que pode ser lido na íntegra, clicando aqui.
Foto do livro "Salas de Cinema em São Paulo", de Inimá Simões - 1990
* David W. Griffith (1875-1948) - Nascido nos Estados Unidos, é considerado o criador da linguagem cinematográfica. Antes de chegar ao cinema, trabalha como jornalista e balconista em lojas e livrarias. Admirador de Edgar Allan Poe, também escreve poesias. No cinema, é o primeiro a utilizar dramaticamente o close, a montagem paralela, o suspense e os movimentos de câmera. Em 1915, com Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation), realiza o primeiro longa-metragem americano, tido como a base da criação da indústria cinematográfica de Hollywood. Com Intolerância (Intolerance), de 1916, faz uma ousada experiência, com montagens e histórias paralelas.
* Chanchada - A idéia da chanchada, que começou a ser produzida nos anos 40, era singela. Propunha-se apenas a provocar desabridas gargalhadas na platéia com um humor ingênuo. Os sujeitos representados na tela pelos ídolos forjados no rádio eram tipicamente cariocas e bem populares. A trama era intercalada de números musicais. Entre os sucessos mais estrondosos dessa fase de ouro do cinema foram Carnaval no fogo (1950) e Aviso aos navegantes (1951), de Watson Macedo, e Nem Sansão nem Dalila (1954), de Carlos Manga, assistidos por um público que vivia um conturbado período político marcado pelo suicídio de Getúlio, em 1954. Estrelas de primeira hora, Anselmo Duarte, Eliana, Oscarito e Grande Otelo eram os favoritos e fulguravam como campeões de popularidade. A chanchada leva a era de ouro do rádio para o cinema, lançando as marchinhas que fariam sucesso no Carnaval, reproduzindo o clima das novelas e, por algum tempo, conseguindo rivalizar com a produção de Hollywood. Por trás dos filmes estava a Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil, criada em 1941, no Rio de Janeiro. Uma bem-sucedida associação com a cadeia de cinemas Severiano Ribeiro garantiu a escalada da chanchada a partir de 1947.
* Vera Cruz - Em 1949, empresários de São Paulo criaram a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Durante quatro anos, a Vera Cruz realizou 18 filmes de longa-metragem e marcou uma época no cinema brasileiro.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.