Exemplos de preservação dos cinemas de rua pelo Brasil: Cine Brasília - Distrito Federal

Por Marcella Oliveira (para o site GPS Brasília – 16/10/2014, atualizado em 30/07/2015)

A casa do cinema de Brasília

Um dos mais belos cinemas do Brasil, o Cine Brasília quer reconquistar o brasiliense. Palco de avant premières até os anos 70 e anfitrião do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o espaço foi recuperado e apresenta sua melhor estrutura desde a sua abertura, há 54 anos.

Ele está ali, no meio dos prédios da Asa Sul. Às vezes, parece estar esquecido. Mas ao longo de uma semana, uma vez ao ano, fica tão cheio que há quem tenha de sentar no chão. Eventualmente, fica movimentado com mostras, festivais e os chamados filmes clássicos e cults. Há 55 anos o Cine Brasília resiste ao tempo, ao surgimento dos cinemas dos shoppings e mantém uma programação que valoriza o cinema brasileiro e, principalmente, o brasiliense.



O Cine Brasília é o mais antigo da cidade, foi aberto um dia após a inauguração da Capital, um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. Traz duas características que não são mais vistas nos cinemas atuais: seu tamanho, tem 600 lugares, e sua localização é na rua. Parece mais um teatro do que um cinema. Sua grande sala tem poltronas espaçosas e confortáveis, uma tela de 14 x 6,30 metros, um sistema de projeção digital e também os tradicionais rolos para os filmes em película 35 mm.



Não é simplesmente uma sala de exibição, como as outras da cidade. É um cinema que tem história. “O Cine Brasília é o sobrevivente dos cinemas de rua. Os outros foram transformados em igrejas ou shoppings”, diz Sérgio Fidalgo, coordenador de audiovisual da Secretaria de Cultura, que administra o cinema.

Foi uma das primeiras opções de lazer da nova Capital. Na década de 60, as filas para suas exibições eram enormes. Dividia o público com os já extintos cines Atlântida, Karin e Márcia. Mas foi perdendo espaço com a chegada de inúmeras redes de cinema.




Não fechou as portas por pertencer ao Governo do Distrito Federal. Não tem lucro, seus funcionários são pagos pelo governo, independentemente do movimento. As mostras normalmente têm entrada gratuita. Nos filmes da programação normal, 50% do que é arrecadado vai para a distribuidora e os outros 50%, para o GDF. “Esse valor é muito pequeno, nem dá para quantificar. O ingresso tem um custo baixo e o público ainda é tímido”, revela Fidalgo, referindo-se aos R$ 12 cobrados pela entrada.

Não é um centro de entretenimento. É um ponto de encontro de amigos e amantes da sétima arte. Um público formado por intelectuais, estudantes e quem trabalha com audiovisual. Todos os dias, são exibidas quatro sessões, às 15h, 17h, 19h e 21h. Às vezes, tem apenas cinco espectadores. Outros dias, fica mais cheio. Mas o público é cativo. Muitos se conhecem, chamam o porteiro, o bilheteiro e o pipoqueiro pelos nomes. Um passeio cheio de charme, que sai mais em conta do que outros. O estacionamento é público. O ingresso e a pipoca super em conta.



Rolos

O cinema tem 20 funcionários, que trabalham em escala de plantão. A cada sessão, são dez. Há o porteiro, o bilheteiro, o projecionista, os faxineiros, o lanterninha e a parte administrativa.

Na sala de projeção, por mais que hoje a maioria dos filmes já seja no formato digital, muitas produções ainda usam os clássicos rolos, que chegam nos cinemas em latas. São os filmes em película 35 milímetros. Um filme de duas horas, por exemplo, tem seis latas. Cada lata tem o nome do filme e um número, para não ter erro na hora de juntar as partes.



Há 21 anos no Cine Brasília, o projecionista Carlos Camurça é um dos funcionários que fica atrás daquela janelinha iluminada no fundo da sala, por onde sai a imagem. “Cresci frequentando o Cine Brasília e me apaixonei pelo cinema de arte”, conta.

Camurça diz que o filme digital é mais fácil. “Basta pegar o DVD ou pendrive e colocar no aparelho”, conta. Mas o projecionista destaca que o grande charme está nos rolos de filmes. A emenda é feita no próprio cinema. O projecionista usa um aparelho chamado “coladeira” para grudar um rolo no outro.



Não é um trabalho simples, exige atenção. A emenda tem que ser perfeita para o filme não ficar fora do quadro. Não pode confundir as latas, nem misturar os filmes. Tudo tem que ser muito organizado. Depois, o filme é exibido na tela para saber se está tudo certo com ele. Quando o filme sai de cartaz, as emendas são cortadas e os rolos voltam para as latas.

Do lado de fora, um trabalhador que não é funcionário do cinema, mas faz parte da família do Cine Brasília. O pipoqueiro José de Arimatéia da Silva, conhecido como Ari, chama muitos expectadores pelo nome. Ele está ali há 22 anos. Lembra de quando o cinema era muito movimentado e lamenta que tenha perdido público. “Não consigo entender por que as pessoas não vêm aqui. É um cinema com um clima diferente, falta só o público”, diz Ari, que muitas vezes aproveita para dar uma espiada no filme em exibição.

Programação

Além de sua estrutura, o diferencial do Cine Brasília está em sua programação, que é antagônica à perspectiva das salas comerciais. O fato de ser uma sala do governo não a deixou refém do mercado, ou seja, abre espaço para filmes menos comerciais. Prioriza o cinema produzido em Brasília, o cinema brasileiro mais independente e a boa produção internacional.

“A gente traz um cinema que, de outra maneira, estaria fora da possibilidade do público de ver. As distribuidoras têm dificuldade em emplacar alguns filmes nas salas comerciais e damos espaço para eles”, conta Sérgio Moriconi, responsável pela programação do cinema há oito meses. “O Cine Brasília nunca vai ser igual ao de circuito, mas não elimina filmes comerciais. Não está fechado para um grande potencial de público, mas ele tem que ter um sentido cultural, não ser apenas um caça-níquel”, acrescenta Moriconi.

Se no dia a dia o movimento não é grande, durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro o local fica lotado. É o festival mais antigo do Brasil e o único com programação exclusiva de filmes brasileiros. Neste ano, acontece entre os dias 15 e 22 de setembro.

Para manter o local agitado, outros festivais também são realizados, a maioria com entrada gratuita. Todos os anos, há o Curta Brasília, voltado para produções locais. Outras mostras e festivais, muitas delas em parceria com embaixadas, dão a oportunidade de conhecer o melhor das produções internacionais, filmes que dificilmente ganham espaço em outros cinemas da cidade.




No segundo semestre, a Secretaria de Educação vai resgatar o projeto Escola vai ao cinema, que foi suspenso com a reforma e ainda não retomou. A ideia está ligada à Educação Integral e é uma das atividades para o aluno fazer no contra turno. “É fundamental para criar um público que virá frequentar o Cine Brasília. Retomar o vínculo entre educação e cultura, que nunca deveria ter sido desfeito”, espera Moriconi.

De acordo com o responsável pela programação, também estão articulando atividades na área externa, como feiras e eventos. “Objetivo é atrair a comunidade, o pessoal das quadras vir prestigiar, aproximar as pessoas do cinema”, afirma. “Nosso desafio é fazer o Cine Brasília voltar a ter um público numeroso. Se tivermos uma média de 250 pessoas, já será excelente”, conclui.

Ir ao Cine Brasília é experimentar a verdadeira atmosfera do que é ir a um cinema. Sem a distração das lojas e lanchonetes pré e pós filme, que se tem nos shoppings. É sentar, pegar seu tradicional saco de pipoca e se concentrar na tela. Simples assim.

História

Uma nova Capital não podia ter apenas palácios, ministérios e residências. Era preciso diversão. Junto com a cidade, nasceu o Cine Brasília, inaugurado em 22 de abril de 1960. Os primeiros moradores da cidade frequentavam o local com roupas de gala em noites de estreias cheias de glamour, para seletos convidados. Os filmes eram exibidos ao público em geral somente no dia seguinte.





Desde o início, o intuito da construção do cinema foi incentivar a produção cinematográfica brasileira. Então, em 1965, foi realizada a Semana do Cinema Brasileiro, que dois anos depois passou a chamar Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em setembro, será realizada sua 48ª edição. Das 47 edições, 39 foram no Cine Brasília, seis foram no antigo Cine Atlântida, uma foi no Cine Karin, uma no ParkShopping e, em 2012, durante a reforma do cinema, foi no Teatro Nacional.

Desde 1975 o cinema não passava por uma grande reforma. Em janeiro de 2012, foi fechado e ficou quase dois anos em obra. Foi reaberto em 11 de setembro de 2013. “A reforma era necessária. Todo ano a gente tinha que maquiá-lo para o festival”, lembra Sérgio Fidalgo.

A fachada de tijolinhos foi mantida como no projeto original, protegidos por um verniz antipichação. As bilheterias deixaram o hall e agora ficam na área externa. Dentro da sala, uma obra do artista Athos Bulcão na parede lateral esquerda foi mantida: um trabalho em relevo em madeira e laminado, em vermelho e amarelo. Os assentos foram trocados por novos. Na lateral direita, onde tinha apenas escadas, há agora uma rampa.

O Cine Brasília foi todo adaptado para atender a Lei de Acessibilidade. Há uma área especial para cadeirantes, poltronas para obesos, rampa com piso tátil, elevador de acesso ao palco e banheiros com acessibilidade. E também foi realizada a troca das instalações elétrica, hidráulica e mecânica, ar-condicionado e controle de incêndio, impermeabilização e instalação de para-raios.

Cine Brasília 
Endereço : EQS 106/107 - Asa Sul  - Distrito Federal
Telefone : (11) 3244.1660

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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.