Os cinemas do Palacete Santa Helena

Inaugurado em 1925, o Palacete Santa Helena era considerado um dos maiores edifícios de São Paulo, tanto em altura como em área construída. Situava-se na Praça da Sé, no coração da cidade. Destinado inicialmente a atividades comerciais e de serviços, acabou incorporando, no decorrer de sua execução, um luxuoso cine-teatro (e, depois, mais um pequeno cinema no subsolo) - resposta à crescente agitação cultural da cidade naquele início de século.



A partir dos anos de 1930, o edifício abrigaria um grupo de pintores de origem operária que ganhou relevo na arte brasileira - conhecido como Grupo Santa Helena -, entre os quais destacavam Alfredo Volpi, Francisco Rebolo, Mário Zanini, Nélson Nobrega e José Pancetti.

Seus elaborados elementos arquitetônicos exprimem um momento importante de nossa construção civil, com a colaboração de competentes profissionais, engenheiros, arquitetos, artesãos e artistas, muitos deles italianos, em um processo de trabalho ao mesmo tempo moderno e artesanal. Utilizou pioneiramente um novo material, na época ainda importado e muito caro - o concreto armado. O edifício inovou a arquitetura do centro de São Paulo e foi negligentemente demolido em 1971, para dar lugar à Estação Sé do Metrô.


O Cine-teatro Santa Helena (inaugurado em 12/11/1925) ocupava os três primeiros pavimentos do bloco central do Palacete, oferecendo a seus espectadores plateia com frisas no térreo, uma área com camarotes no mezanino e uma galeria no piso superior.

Acesso ao subsolo
Na planta original era previsto um salão de festas no subsolo (sob a plateia); nessa área foi instalado, posteriormente, um outro cinema, o Moinho do Jéca (inaugurado em 22/12/1933), depois Cinemundi (em 05/07/1940).



O cine-teatro era dotado de uma plateia com 27 metros de vão, coberto por uma estrutura semi-elipsoidal, de componentes metálicos. A capacidade da plateia era de 680 lugares; as frisas para 5 assentos eram, em projeto, 24; e os camarotes para 5 assentos eram 30. As acomodações eram, no total, de 950 assentos, sem contar os lugares da galeria superior. Notícias da época dão conta de que a lotação correspondia à ocupação de 1500 lugares: a revista L'Illustrazione Italiana comenta a inauguração do prédio, cujos construtores e arquitetos eram italianos, trazendo várias informações, entre elas, a capacidade do teatro.



O cine-teatro, que não fazia parte do primeiro projeto enviado à Prefeitura, foi incorporado ao projeto inicial logo em seus primeiros modificativos. Esse fato, juntamente com as demais modificações e ampliações por que passou o projeto do Palacete, demonstra a volatilidade dos interesses imobiliários e a crescente agitação cultural de São Paulo nas décadas iniciais do século XX. Nesta época, os paulistanos tinham a curiosidade despertada por um invento recente: o cinematógrafo. O sucesso inicial do cinema foi tanto que já em 1907 se abriu a primeira sala montada especificamente para a exibição regular de filmes - o Bijou Theatre. No primeiro pós-guerra começam a surgir salas mais luxuosas, como o Cinema Central, no Anhangabaú, o exótico Santa Cecília e o próprio Santa Helena, que exibia as maiores produções americanas e realizava vesperais exigindo que os cavalheiros usassem "smoking".


O arquiteto que originalmente idealizou o projeto foi Giacomo Corberi, também responsável pelas primeiras alterações: redesenho da fachada e inserção do cine-teatro. A inclusão do cine-teatro representava um novo patamar para o empreendimento, que ganhava prestígio e tornava-se uma aposta na movimentação cultural de São Paulo, coincidindo exatamente com a Semana de Arte Moderna de 1922. Não apenas o edifício tornava-se multifuncional, de forma pioneira, mas o novo elemento da paisagem urbana destacava-se pelo luxo da decoração prevista e pela modernidade das instalações, que incluía maquinaria de projeção de filmes, ventilação mecânica e todos os equipamentos de bastidor de um grande teatro.

Em relação à decoração interna do teatro e à pintura de seu teto, houve a identificação do responsável, o artista, também italiano, Adolfo Fonzari. Fotos da época revelam o requinte dos detalhes, o apuro da execução e a qualidade técnica das pinturas e elementos utilizados.

Na porta central do cine-teatro foram postas as figuras que representam a Glória e a Fama, anunciando por meio de trompetas a entrada triunfal dos visitantes. O cine-teatro apresentava produções hollywoodianas, além de espetáculos cênicos e musicais.


Fonte de pesquisa :
Informações do Banco de Dados do blog Salas de Cinema de São Paulo e do livro "Palacete Santa Helena: um pioneiro da modernidade em São Paulo", de Candido Malta Campos e José Geraldo Simões Júnior (organizadores) - Editora Senac São Paulo - Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2006


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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.