A estreia de Ao Balanço das Horas em São Paulo

Por Antonio Ricardo Soriano

Homenagem a Gilberto dos Santos (in memoriam).

O musical de rock and roll Ao Balanço das Horas estreava nos cinemas de São Paulo em 19 de dezembro de 1956 em meio a muita confusão. Meu tio Gilberto me contou, por várias vezes, do dia em que assistiu ao filme no cine Carlos Gomes (no bairro da Lapa). Recentemente, acabei achando um anúncio de jornal de 19 de dezembro de 1986 (trinta anos do ocorrido) dentro da capa da trilha sonora do filme que pertencia a ele. O artigo que publico abaixo (na íntegra) é de Ricardo Soares para o Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo (Fotos de Antônio Lúcio):

Ao balanço dos anos

Hoje faz 30 anos que o filme Ao Balanço das Horas estreou em Sampa e sacudiu uma geração

Por Ricardo Soares

Há exatamente 30 anos - quebrando cadeiras, fazendo fumaça e arrumando encrencas com meia dúzia de policiais - o rock and roll chegava oficialmente a São Paulo fazendo corar quatrocentões e dançar os teen-agers de calça de zuarte desbotada com bainhas dobradas. Naquele 19 de dezembro de 1956, o chique cine Paulista, localizado na Rua Augusta (e mais dez cinemas) estreava Ao Balanço das Horas (Rock Around the Clock) com a participação de Bill Haley e seus Cometas mais The Platters, Tony Martinez, Freddie Bell e outros.



A confusão da estreia ficou por muitos anos na memória da cidade e do então governador Jânio Quadros, que proibiu terminantemente (termo dele) quaisquer manifestações do público que fosse assistir ao filme - proibido, em seguida, para menores de 18 anos. Resultado: a polêmica ganhou as páginas dos jornais, mesas de bares e salas de jantar de famílias de classe média.

Em São Paulo, como em qualquer parte do mundo, o rock chegava sob o signo da transgressão. A cidade também assistia em seus cinemas A Sereia dos Mares do Sul, com Virginia Mayo e Suplício de uma Saudade, com William Holden e Jennifer Jones. No teatro, as sensações eram Gata em Teto de Zinco Quente, de Tenessee Williams, com Walmor Chagas, Cacilda Becker e Ziembinski, e Um Deus Dormiu lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, com Tonia Carrero e Paulo Autran. Arnaldo (Titãs) Antunes, Paulo (RPM) Ricardo e Renato (Legião Urbana) Russo mal pensavam em vir ao mundo.

No entanto, as atenções da moçada entre 14 e 18 anos estava toda voltada para os cartazes e anúncios de jornal, que diziam: "Ouçam quatro orquestras maluquíssimas executando o ritmo selvagem do rock and roll. Este é o filme cuja música alucina!". Seguindo à risca o conselho, eles se alucinaram. Gastaram o Cascolac de suas casas, dançando ao ritmo do rock e, contradizendo as notícias que decretavam a morte desse gênero musical, passaram o gosto para seus filhos e (pasmen) netos.

A jornalista Cecília Thompson, 50 anos, lembra-se bem daqueles dias. Recorda que o cine Paulista era todo decorado com cadeiras listradas de vermelho e preto (homenagem ao quarto centenário de São Paulo, comemorado dois anos antes) e apesar de considerar, naquela ocasião, que "rock era coisa de garotada" foi assistir ao filme. Militante de esquerda e noiva do dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, com quem depois se casou e de quem se separou, ela acreditava que o rock era apenas "criação do imperialismo ianque". Mas viu o filme e gostou.



Diva Maria Carvalho, 46 anos, mãe de Cláudio e Stefano (22 e 20 anos) também assistiu, bateu palmas e dançou. Desde o início
sempre achou que o rock vinha para ficar, e hoje não reclama quando os filhos ouvem em alto volume os acordes dos Dire Straits, Sting, Quiet Riot, Rolling Stones ou os bons e velhos Beatles. Os meninos são ecléticos em matéria de rock e a mãe nada tem contra: "Eu fui como eles" - confessa Diva, eterna apaixonada pelo topete daquele ex-caminhoneiro do Tennesse: Elvis Presley.

O rock, estranha fusão da música negra com a branca, tem história e origens apontadas em vários sentidos. Há inclusive os que dizem ter ele nascido na Grécia há 2500 anos, segundo conta um mofado recorte de A Tribuna de 22 de junho de 1958. Naquela ocasião, o professor Matias Boss, catedrático de história grega em Bonn, Alemanha, garantia ter chegado ao embrião do rock and roll depois de examinar antiquíssimos papiros. Ele se chamava Karax, era dançado de maneira semelhante e, ao mexerem com o quadris, os jovens gregos entoavam: "Levantai as pernas bem altas no ar e rebolai com muita força".

Grego ou negro, o que importa é que o rock veio para ficar. Seu início foi oficialmente identificado por esses acordes quase ingênuos: "One, two, three o'clock, four o'clock rock..." repetidos infinitas vezes, a partir de maio de 1954, por um músico branco, de talento questionável, gordinho, com pouco jogo de cintura e que morreu completamente careta, em 9 de fevereiro de 1981, em Harlingen, Texas, aos 55 anos. Seu nome: William Bill John Clifton Haley. O Bill Haley e seus Cometas.


Polícia interrompe sessão do filme, devido à algazarra promovida por jovens na sala. Proibidos de dançar, os jovens gritavam, xingavam e soltavam bombinhas - 20/12/1956

O jornalista Antonio Carvalho Mendes, 53 anos, não assistiu a Ao Balanço das Horas, há 30 anos, mas sempre foi um rock and roller, apesar da aparência sóbria. Responsável, no Estado de S. Paulo, pelas colunas Cinofilia, Cartas dos Leitores, Idéias em Debate e Necrologia, ele se recorda muito bem da confusão de dezembro de 1956. Mas não assistiu ao filme porque seu ídolo, Elvis Presley, não aparecia. Toninho, como é carinhosamente chamado pelos amigos, adora o ex-caminhoneiro do Tennessee, cantando Kiss me, Kiss me, Kiss me. E mais: quando o Queen veio ao Brasil ele estava na plateia batendo palma e pedindo bis.

São 30 anos em que São Paulo mudou e ficou de pernas para o ar. O rock errou? pergunta hoje Lobão. Pela vendagem dos discos, e pela sucessão de gerações que dançaram e ainda dançam nos cinemas ou danceterias da cidade, parece que ele cresceu, teve filhos e passa muito bem, obrigado.

Licença Creative Commons
As fotos e informações deste site estão protegidas e licenciadas pela Creative Commons.
ACESSE O BANCO DE DADOS


BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.