Esplendor e glória das salas de cinema

Por Ignácio de Loyola Brandão (Jornalista e escritor nascido em Araraquara/SP)

Acabo de passar por sete cidades do Triângulo Mineiro: Uberlândia, Monte Carmelo, Araguari, Patrocínio, Patos de Minas, Araxá e Uberaba. Em Araguari, Cinthia Maria Costa e Maria Cristina de Paula, da Faec (Fundação Araguarina de Educação e Cultura), me levaram a um restaurante na Praça Manoel Bonito. Entramos, nos servimos e quando olhei em torno estremeci:
- Esse lugar parece um cinema!
Eles sorriram:
- E foi!

Foto de Leandro Cezar Maniezo



Tinha sido o cine Rex, onde Luiz Sergio Person realizou a avant-première de O Caso dos Irmãos Naves, que, junto com São Paulo Sociedade Anônima, o incluiu entre os diretores de primeira linha do cinema brasileiro. Person não teve tempo de continuar sua obra, faleceu num acidente aos 40 anos em 1976. O Caso dos Irmãos Naves é a história de um célebre erro judiciário que abalou a cidade. O Rex cumpriu a sina da maioria das salas do Brasil, acabou. Cinemas de rua, digo. No entanto, em lugar de se tornar supermercado, estacionamento ou igreja, ficou fechado, porque seu criador, Milton Lemos da Silva, sonhador e obstinado, resistiu. Até o dia em que cedeu ao restaurante, com a condição de que decoração e arquitetura fossem mantidas intocadas.

Foto: Arquivo Público Municipal



O melhor estava por vir. Na saída, conheci um senhor que seguia para o caixa. Hermínio Carraro, me disse, estendendo a mão. Sua história está ligada ao Rex, ele foi o eletricista responsável pela instalação e manutenção dos circuitos, viveu num pequeno apartamento ao lado do cinema, cujo projeto é da mesma empresa que projetou o Estádio do Pacaembu, a Arnaldo Maia Lello. Hermínio acompanhou Milton Lemos da Silva a São Paulo, assistindo filmes durante dias e dias, pesquisando os melhores equipamentos. E escolheram a mesma aparelhagem de som do Ufa Palace, na Avenida São João, que, a partir de 01/01/1940, passou a se chamar Art Palácio. O programa daquela noite inaugural 21 de julho de 1938, (Preço único: 3 mil-réis) conta: "Projeção nitidíssima, perfeita, som puro, cristalino, exato, envolto em imagens límpidas, soberbas, perfeitas. Passadeiras macias eliminam qualquer ruído, evitando a inconveniência causada pelos retardatários". Bilheteiros e lanterninhas uniformizados. Tudo hollywoodiano. O programa tem 12 páginas, Milton fazia as coisas com requinte.

As imagens iam sendo reconstituídas pela narração de Hermínio e três filmes se misturaram na minha mente: Cinema Paradiso, Splendor e A Última Sessão de Cinema, todos nostálgicos, o mesmo tema. O filme inaugural foi Terra dos Deuses (The Good Earth), com Paul Muni e Louise Rainer. No Rex, por anos, os araguarinos viram filmes, concertos, balé, recitais e programas de rádio, afinal era um cineteatro. Por muito tempo, as pessoas se acostumaram a ver as alunas internas do Colégio Sagrado Coração sentadas em um setor reservado, segregadas ferreamente pelas freiras, às quais os pais, fazendeiros severos, tinham confiado a guarda das filhas.

Réplica do Fusca "Herbie" exposta no cine Rex (Foto de Geraldo Vieira)

Réplica do Fusca "Herbie" exposta no cine Rex (Foto de Geraldo Vieira)


Um dia, em 15/07/1947, as pessoas chegaram e deram com os preços aumentados. Não vacilaram, depredaram o Rex. Noite trágica. Hermínio correu e trancou a sala de projeções, a aparelhagem escapou. O resto ficou em pedaços: poltronas, cortinas, espelhos, balcões das bonbonnières, decorações, bilheterias. Reaberto, os preços foram mantidos, porém a empresa construiu outro cinema, a preço popular, o Lux, hoje depósito de uma loja de móveis.

Foto: Arquivo Público Municipal


Por anos, a rotina, sessões às 19h30 e 21h30, e o cinema foi perdendo a corrida para a televisão, a vida moderna, as mudanças da sociedade, até fechar em 1990. Porém, Hermínio continua a vir ali ainda que, por um bloqueio íntimo, tenha demorado muito a tomar coragem, romper com o passado, estava sempre a ouvir o murmúrio da plateia inquieta e depois o som ritmado do projetor e da música de fundo e a sentir os cheiros de perfumes, da cera do piso e das balas de hortelã.

Agora, terminado o almoço, a cada dia, ele dá o braço à sua mulher, dona Sedinha, e caminham a pé três quadras até a pequena oficina de reparos elétricos que ele ainda mantém aos 90 anos, cheio de serenidade e com um riso comunicativo.

Crônica publicada no Caderno 2 do jornal "O Estado de S. Paulo", em 07/10/2005.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.