Cine Santa Clara

Por Márcio Jabur Yunes 

Crônica do livro "Como era verde o meu vale" (2014), onde Jabur rememora sua cidade, Espírito Santo do Pinhal, localizada no interior do estado de São Paulo. Neste texto, ele conta suas recordações de quando frequentava os antigos cinemas de rua da cidade.
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  O CINEMA ERA TUDO. Ponto de encontro, espaço de sonho, sala de estar, modelo de vida. Doris Day e Rock Hudson, american way of life. E lugar para ver e ser visto. A missa também, mas o cinema era melhor.
  Cinema, missa aos domingos e, durante a semana, a saída das meninas do ginásio, em nuvens gárrulas, florindo a praça cheia de flores e de sol, brisa das montanhas, 900 metros acima do nível do mar, serra da Mantiqueira, as meninas saindo e as moças do Normal subindo para a aula - vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco, num rostinho encantador, minha linda normalista, rapidamente conquista, meu coração sem amor - cantava Nelson Gonçalves.
  Ah, as moças de azul e branco do Normal! Graça e inocência, pudor, malícia e recato. A beleza, o andar, o perfume pressentido, o inebriante perfume das raparigas em flor...
  E, no domingo, como todo mundo, elas iam também ao cinema. O cinema era o clube. A gente ia, e só depois ficava sabendo qual era o filme. E quando o leão da Metro aparecia, a gente fingia enfado e dizia: pô, já vi essa fita! Fita de cinema! Ninguém mais sabe o que é isso. Vão pensar que é alguma fita que se atravessava na porta ou na bilheteria, por algum desconhecido motivo, a fita amarela gravada com o nome dela.
  — Não faz fita menino!
  Hoje ninguém mais faz fita. As pessoas apenas fingem.
  Havia três cinemas em Pinhal, então, e não há mais nenhum. O mais novo, o Santa Clara, quando inaugurou foi deslumbrante. Creio mesmo que, para mim, em toda minha vida, nunca houve deslumbramento igual.
  Para o meu gosto de hoje, contudo, o antigo Cine Theatro Avenida (mais conhecido como "Cine"), que tinha aqueles camarotes de ferro rendilhado, pareceria de longe o mais bonito, muito mais bonito. O Santa Clara, tão maravilhoso, provavelmente fosse apenas brega, com seu grande aquário de peixes vermelhos e dourados separando as bilheterias tão chiques e sua plateia de mil e oitocentos lugares (e a do Pullman, de poltronas estofadas e o dobro do preço).
  E eu nunca tinha visto um aquário, nem aqueles peixinhos ornamentais importados, peixes eram só os Curimbatás, Bagres, Mandis e Cascudos do rio Mogi Guaçu.
  Aí a gente passava pelo aquário dos peixinhos dourados e vermelhos, o porteiro impecável e empertigado rasgava nosso ingresso tão precioso – e o depositava na lustrosa urna de mogno - e então, aguardávamos a sessão na chiquérrima sala de espera, com sofás de plástico verdes e vermelhos, paredes verdes de reboco chapiscado e luz indireta de arandelas de alvenaria e moldura de gesso. A imensa plateia com sua grande inclinação, tinha poltronas de mogno encerado, móveis Cimo, Curitiba. Só as do Pullman eram estofadas, e só no assento, mas era muito chique assim mesmo, enquanto as do Éden tinham molas que mantinham os assentos sempre dobrados automaticamente, provavelmente para impedir que os batêssemos como fazíamos no Avenida, nas matinês, quando Durango Kid perseguia o bandido no final.
  Havia, também, na sala de espera, depois do aquário, do porteiro impecável, da luz indireta das arandelas (eu nunca tinha visto isso também: luz, até então, eram lâmpadas que pendiam do teto), um “laguinho” (nunca sei o nome dessas coisas, deve ter um mais apropriado, mas não sei) revestido de azulejos e pedras, com peixinhos deslumbrantes, mas maiores, ainda que não tão coloridos como nos jardins japoneses cheios de Carpas brancas salpicadas de vermelho.
  Isso, sem falar do Pullman (balcão ou plateia superior), com escadarias em mármore branco na parte dos degraus em que a gente pisa e mármore negro naquela parte vertical entre os degraus, e corrimão de vidro e aço dourado. A sala de espera do Pullman era deslumbrantemente iluminada de vermelho, rosa, amarelo, verde e azul, pelos reflexos do luminoso lá fora, vindos através dos grandes vitrôs, que ocupavam toda a fachada do segundo andar, bem acima da marquise de concreto pintada de branco. 
  Havia os cartazes dos filmes da semana, e os outros, fascinantes e imperdíveis, mas lamentavelmente remotos sob a plaquinha dizendo “breve”. E sem falar na “maior tela do interior”, a tela imensa do CinemaScope.

Cine Sta. Clara
  E para estrear esse cinema maravilhoso, e essa tela tão grande, tão infinita como todas as telas de cinema (ao contrário da televisão, que é apenas um objeto na sala, que pode até viciar, mas que nunca terá a magia do cinema), veio nada mais nada menos que O Manto SagradoIsto é, viria, pois foi adiado e a inauguração foi com Rebelião na Índia, o que deu no mesmo para mim, frustradíssimo porque não podia ver nem um nem outro por causa da idade, não tinha os dez anos exigidos.
  Como compensação, meu pai me levou, no sábado seguinte (a inauguração, é claro, tinha sido domingo), e foi a única vez que fui ao cinema só com meu pai, ia sempre com os dois, meu pai e minha mãe, mas nunca aos sábados, que era só bang-bang e reprises do Mazzaropi, quando os pobres tomavam o cinema de assalto e as filas davam voltas no quarteirão, ignorando solenemente nossos narizes torcidos e empinados de velhos e novos ricos, ainda que mal passássemos de remediados.
  E a compensação pela estreia frustrada e proibida valeu, porque era filme do Tarzã.
Contudo não foi Tarzã que me deslumbrou. Tarzã era sempre maravilhoso, mas eu já conhecia, era o Durango Kid das selvas. O que aconteceu foi que, ao começar o filme, as luzes de cima da plateia se apagaram, e ficaram só as belíssimas arandelas laterais, a luz indireta que tanto me impressionara, e depois essas se apagaram também, e a projeção começou sobre as imensas e grossas cortinas cor de vinho, que foram se abrindo e magicamente exibindo a maior tela do interior, que não era quadrada como as outras, mas longamente retangular, com os lados de cima e de baixo curvos, mais estreita no meio e com as extremidades mais largas. 
  A inédita tela CinemaScope não era totalmente branca e tinha um arco-íris na parte de baixo, ponta a ponta, e as paredes do palco eram como as de uma concha acústica retangular, pode-se dizer “concha retangular”, e ali, por trás de cada reentrância, acendiam-se luzes coloridas, vendo-se só as cores e não as lâmpadas.
  E já ia começando os jornais da tela, Fox Movietone, Atualidades Atlântida (de Luís Severiano Ribeiro) ou Atualidades Francesas (narradas pelo inesquecível Júlio Rosen). Os jornais começavam, projetados sobre a cortina pesadíssima de veludo grená, que se abria lentamente exibindo as brancas entranhas cinematográficas da tela com seu arco-íris de ponta a ponta, enquanto o outro arco-íris ainda permanecia aceso por alguns segundos, na concha retangular e imensa. 
  Depois dos jornais vinham os reclames dos próximos filmes, depois um desenho do Tom e Jerry “roubado” da sessão Zig-Zag, ou Pato Donald, ou comédia dos Três Patetas, e o “filme natural”, aqueles documentários da Disney sobre, por exemplo, o drama do deserto, depois um imperdível bang-bang, e, finalmente, o filme principal, Tarzã!
  Era tanta coisa só para nos agradar, isto é, a gente se sentia homenageado por tudo aquilo (aquelas luzes coloridas em volta da tela, escondidas na “concha acústica”), peixes dourados, o baleiro do tamanho de um bar, com balcões de mármore e vitrines de cristal, cheias de “bombas”, canudos, cocada e bem-casados, a água gelada do bebedouro num tempo em que ninguém tinha geladeira (nem geladeira, nem liquidificador, nem fogão a gás, nem chuveiro elétrico – a água quente do banho vinha de serpentinas que passavam por dentro do fogão a lenha e iam até o chuveiro do banheiro de paredes à óleo).
  E o cinema todo lindo, cheirando a novo, luzes inusitadas, cortinas luxuosas, poltronas chiquérrimas, tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo... deslumbrante. Mas, aquelas luzes em volta da tela... E tudo só para mim, só para me... deslumbrar.
  Se você viu, você sabe. Se não sabe, não me entenderá.
  E pipoca de carrinho! Antes, a pipoca era fria, de três dias atrás, e vendida em cartuchos como os de amendoim, só que maiores, os vendedores traziam cestas de vime, depositavam na sarjeta, em frente à bilheteria, e ficavam ali, de pé, a noite toda. Os cartuchos grandes de papel-de-pão branco eram pipoca; menores, azul claro, amendoim salgado; rosa, amendoim sem sal; cartuchos ainda menores, papel celofane azul escuro, amendoim doce; cesta menor, só um tipo de cartucho, papel de jornal, amendoim com casca, que no Santa Clara era proibido, por causa da sujeira das cascas no chão, sem falar que era excessivamente barulhento na sala escura e silenciosa, ainda que nem sempre.
  Sim, carrinho de pipoca era inédito, como tudo o mais, igual ao carrinho do algodão doce, só que vendia pipoca quentinha e o cheiro se espalhava por dezenas de metros e, acima de tudo, a gente a via arrebatar, como via o açúcar transformar-se magicamente naqueles longos e incomparáveis fios brancos que derretiam na boca e sujavam o nariz.
  E Torcida!, um tipo de quebra-queixo, amarelo queimado, enrolado (talvez, puxa-puxa de melado), que acho que só em Pinhal existia, nunca vi em outra parte.
  E, pasme, o carrinho da Kibon! Dá pra acreditar? De onde saiu aquilo? Mais do que tudo, este realmente nunca tínhamos visto. Os sorvetes Chica-bon, Ka-lú, Ja-ja e o de caixinha Eski-bon, quem já vira algo assim? Chocolate cheio de sorvete! E os chocolates, tão diferentes do Diamante Negro, do Sonho de Valsa que, entretanto, duram até hoje, enquanto sumiram os tais Ki-bamba, Ki-coisa, etc. - E, se tiveres renda, aceito uma prenda, qualquer coisa assim, como uma pedra falsa, um sonho de valsa, ou um corte de cetim (Chico Buarque).
  Mas não pense que a coisa era assim fácil. O Éden (o primeiro cinema construído na cidade), diante do sucesso do Santa Clara, logo reagiu e inaugurou uma tela maior ainda com o filme Um Fio de Esperança, que você não deve nem ter ouvido falar, mas cuja música-tema certamente já ouviu, e que no filme é assobiada por John Wayne, porque ele podia ser implacável com os índios e japoneses, mas era incapaz de cantar uma única nota musical. E quando eu disse que o assento da poltrona do Éden tinha molas para não as batermos. como fazíamos no Avenida, nos momentos mais heroicos de Durango Kid ou Billy Eliot, cabe dizer que o assento que batíamos era o da poltrona vazia ao lado.
  E se estava vazia, como explicar que todo domingo enfrentávamos longas filas ao sol do meio-dia, até às duas da tarde, trocando gibi enquanto isso? Dá para entender? Claro que dá, a não ser que você nunca tenha tido sete anos e um entusiasmo tão grande, tão puro, tão ingênuo. Duas horas de fila para um cinema que não lotava nunca?
  Paixão igual, não houve e nem haverá, mas chegou perto quando o Santa Clara lançou a seção Zig-Zag, às dez horas, nas manhãs de domingo, aquelas manhãs longínquas, ensolaradas e azuis. A gente saía da missa, na grande, imponente e bela igreja de Pinhal, atravessava a rua linda e arborizada, e já estava na bilheteria do Santa Clara, em frente do famoso aquário e da praça florida.
  Mas aí o Éden contra-atacou com três filmes em 3D. Um eu não lembro, mas os outros dois são clássicos e excelentes: Veio do Espaço e O Monstro da Lagoa NegraA gente recebia os óculos na entrada ao entregar o ingresso, maravilha pura. Terceira dimensão, tudo diferente, os caras estranhos na entrada do cinema, controlando e distribuindo os óculos, e ótimos filmes.
  Isso era Pinhal na década de 50.
  E não era só isso. O Éden era um cinema que passava, de terça-feira, filmes como, por exemplo, Laura ou Quando Fala o Coração. Combatia assim, com Otto Preminger e Hitchcock, o luxo e a badalação do cinema adversário. Sem falar nos filmes franceses e italianos, neorrealismo e as comédias antológicas.
  O filme americano A Última Sessão de Cinema mostra muito bem e, de forma nostálgica, o fim dos cinemas do interior. E o mais incrível que, na época, meu irmão Marcos me disse (e eu já estava fora de Pinhal há muitos anos) que viu o filme e o Santa Clara, lamentavelmente, vazio. Creio que ele nem percebeu que, mais uma vez, a realidade repetia a ficção, e que ele viveu na pele o que a tela mostrava.
  Nesse filme, Ben Johnson fala de seu arrependimento por ter tido um romance impossível com uma mulher casada, mas logo se corrige e diz:
  — Não, pelo contrário! Amar uma mulher como aquela foi a melhor coisa que eu fiz na vida.
  Pois é, queridos conterrâneos, amar uma cidade e um tempo tão maravilhoso é saudosismo? Ou é a nossa mais profunda e eterna obrigação? A melhor coisa que tivemos na vida...



Márcio Jabur Yunes no lançamento do seu livro no CineSesc.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.