Tempos de seriados no cinema

Por Antonio Ricardo Soriano

Os primeiros seriados do cinema

"What Happened to Mary" foi o primeiro seriado dos EUA, realizado em 1912, pelo Edison Studios, com roteiro de Horace G. Plympton, direção de Charles Brabin e, no elenco, Mary Fuller e Charles Ogle. Desenrola-se em 12 episódios contínuos, iniciando-se em 26 de julho de 1912, para coincidir com a história, também em série, publicada na revista The Ladies' World, de The McClure Publications. O seriado começou após o editor da revista, Charles Dwyer, ter encontrado Horace G. Plimpton, gerente da Kinetoscope Company Thomas Edison. A realização paralela entre a publicação na revista e o seriado foi combinada entre os dois. Apesar de a heroína ter participado de sequências de ação e perigo, nenhuma delas era usada para assegurar o suspense nos finais dos capítulos, diferente dos próximos seriados que veremos a seguir.























Do artigo "Seriado, um inocente precursor da telenovela"
Jornal "O Estado de S. Paulo" - 12/01/1972:

No inicio do século passado, os grandes jornais americanos lutavam para aumentar sua venda avulsa. Foi dessa luta que nasceu o filme em série, ou seriado, um tipo de diversão baseado no suspense e na paciência e que o rádio, primeiro, e a televisão, depois, encampariam, para torná-lo de fato o passatempo e a angústia de milhões em todo o mundo (até hoje!). Assim é que, em 1913, uma grande cadeia americana de jornais teve a ideia de publicar seus folhetins simultaneamente com a exibição de um filme baseado neles e financiado pela própria cadeia de jornais (a mesma ideia original do editor da revista The Ladies' World, um ano antes).

"As Aventuras de Kathlyn" (The Adventures of Kathlyn - 1913), extraído de folhetins do jornal Tribune, de Chicago, foi o filme que estabeleceu a fórmula infalível dos seriados: o máximo de sensação e o mínimo de plausibilidade. Cada episódio terminava num momento de muito suspense e tensão, habilmente calculado para induzir a plateia a voltar na semana seguinte e verificar como a mocinha escaparia de seu terrível destino, armado pelo vilão. O sucesso foi estrondoso.

"The Adventures of Kathlyn" foi realizado pela Selig Polyscope Company, dirigido por Francis J. Grandon e inspirado em uma história de Harold MacGrath e Gilson Willets. Estrelando Kathlyn Williams como a heroína, foi filmado em 13 episódios, em Chicago. Um livro com o mesmo título foi publicado por Harold MacGrath, em janeiro de 1914, sendo vendido nas livrarias ao mesmo tempo em que o filme (seriado) era exibido nos cinemas.

Apesar de o primeiro seriado americano ter sido "What Happened to Mary", "The Adventures of Kathlyn" foi uma peça importante na história do cinema. Foi o primeiro seriado a usar o cliffhanger (formato em que cada episódio da série terminava com um perigo ou suspense, retomado apenas no início do próximo episódio) e assim se tornou reconhecido como o primeiro da história.























O Tribune aumentou sua tiragem em dez por cento, e os donos dos cinemas, a princípio descrentes, admitiram afinal que os negócios prosperavam. Nos três anos seguintes, a nação foi assolada por um vendaval de histórias em capítulos. O Tribune financiou mais um filme - "O Mistério do Milhão de Dólares" (The Million Dolar Mistery - 1914) - escolhendo o título primeiro e a história e atores - Florence La Badie, Marguerite Snow e James Cruze - depois. Seus 23 capítulos custaram cerca de 250 mil dólares, foram exibidos em sete mil cinemas, renderam um milhão e meio de dólares, voltando para os acionistas 700 por cento de seu investimento - uma fábula para a época.























Os seriados contribuíram para a evolução do cinema no período de transição dos filmes de dois rolos para os de longa metragem e também para a estabilização do cinema como meio expressivo. Pode-se dizer que constituíram a primeira tentativa de dar à narrativa cinematográfica a progressão e o sentido próprios da novela.

"Os Perigos de Paulina" (The Perils of Pauline - 1914), primeira produção americana da empresa francesa Pathé, interpretada pela atriz Pearl White e dirigida por Louis J. Gasnier, firmou definitivamente o gênero. O seriado tornou-se tão popular que a produtora aumentou a quantidade de episódios de 15 para 20. No Brasil, recebeu o nome de "Aventuras de Elaine" e foi exibido, em São Paulo, no Íris Theatre em 8 de dezembro de 1916, passando para o Cine Central em 5 de janeiro de 1917.























Os mocinhos e mocinhas destes seriados passavam por tudo: eram atirados no fogo, do alto de um penhasco, aprisionados pelos índios, amarrados em trilhos de estradas de ferro ou em mesas contra as quais avançava ou descia uma serra afiadíssima. A imaginação dos roteiristas levou-os a enfrentar todas as ameaças e perigos.

A moda dos seriados logo chegou à França e seu maior cultor foi o diretor Louis Feuillade, que, em 1914, realizava o maior êxito de sua carreira: a série Fantômas, baseada no personagem do folhetim de Pierre Souvestre e Marcel Allain.























Características dos seriados do cinema

Do artigo "O Espírito Que Caminha contra as balas que miam", de Ruy Castro - Jornal "O Estado de S. Paulo" - 31/07/2004:

Os seriados eram uma atração dos poeiras (cinemas de rua mais simples) dos subúrbios e províncias. Seu público era infanto-juvenil em idade física ou mental. Compunham-se de 12 ou 15 episódios de cerca de 18 minutos (dois rolos) cada, exibidos semanalmente nas matinês como complemento a um filme do mesmo estúdio, quase sempre um faroeste de 70 minutos estrelado por um cowboy (o total perfazia a hora e meia de uma sessão normal). Depois de uma boa briga ou de um tiroteio em que as balas miavam, cada episódio terminava com o herói ou heroína pendurado no precipício, amarrado dentro de um paiol que explodia ou desacordado num carro que voava pela ribanceira. A ação se interrompia e um aviso dizia: "Voltem na próxima semana para ver a continuação deste episódio". Na dita volta, repetia-se o trecho decisivo do episódio anterior, com a diferença de que, desta vez, via-se o herói desamarrando as cordas ou acordando a tempo de fugir do paiol ou de saltar do carro antes que ele se esbodegasse. Tudo muito previsível até para os infantes daquele tempo, mas também muito bem feito tecnicamente.

Os seriados nos cinemas de bairro

Os cinemas de bairro tinham vida própria, pois continuavam a fazer suas próprias programações especiais. Muitos exibiam os famosos seriados, depois das atrações principais. Terminavam em grande suspense, para 'continuar na próxima semana'. Era uma maneira de chamar o público a voltar na semana seguinte. Os seriados atingiram o seu auge nos anos de 1940, mas, no início dos anos de 1950, já estavam em decadência nos EUA. Mesmo assim, continuaram populares aqui no Brasil, pois ainda eram exibidos nos cinemas de bairro da Capital e cinemas do interior de São Paulo.

26/11/1950

1950











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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.