Aqueles cinemas

Por Paulo Bomfim - Poeta brasileiro, nascido em 30/09/1926, membro da Academia Paulista de Letras, conhecido como O Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Autografando seu novo livro "Insólita Metrópole" para o acervo da biblioteca do Colégio Dante Alighieri no "Espaço Cultural Paulo Bomfim".

Os filmes e eu começamos a falar na mesma época. Antes, éramos mudos. Engatinhávamos com o cinema sonoro que nascia e ia silenciando os pianos nas arcaicas salas de projeção.

Minha primeira fita foi aquele desenho animado no cine Rosario, num Edifício Martinelli que contava também com poucos anos de vida. Ganhara na ocasião um boneco de feltro narigudo, com a cara do ator Procópio Ferreira. Encantado com o brinquedo, exigi de meu pai apresentação ao artista. Como a coisa ficou difícil de se concretizar, acabei indo parar no Rosario, onde tentaram me convencer de que o desenho animado era a história do meu boneco. Só vim a conhecer Procópio pessoalmente, quando me procurou no Conselho Estadual de Cultura a propósito do patrocínio de suas apresentações. Contou-me que era de família açoriana, da Ilha de São Miguel, e primo do poeta Antero de Quental.

Em chãos do antigo Café Brandão, o cine Rosario, com poltronas estofadas e paredes vermelhas enfeitadas com flores-de-lis douradas, era dos mais belos cinemas paulistas. Foi nesse cenário que recebi meu segundo tapa, ao colocar, distraidamente, a mão no joelho da namorada. O primeiro foi um balanço na Fazenda Himalaia, na "Estação de Ouro", em Araraquara, ao tentar beijar a filha de amigos de meus avós que nos visitavam. Na ocasião, teria dez anos, e a menina, uns quatorze, aproximadamente.
- Onde andará essa velhinha hoje?

Junto ao Rosario, o cine São Bento era o primo pobre, contentando-se em passar filmes de menor categoria.

Cine São Bento

Na Rua Direita, próximo ao local do velho Hotel Itália, onde Castro Alves se hospedava com Eugênia Câmara, o cine Alhambra funcionava olhando para a Casa Alemã. Foi aí que assisti a Ela a Feiticeira, inspirado em livro de Henry Rider Haggard, autor que teve suas Minas de Salomão traduzidas por Eça de Queirós. Nas memórias de Mircea Eliade, o romeno historiador de religiões e mitos diz que Ela a Feiticeira é romance altamente iniciático. Outro livro que teria esse mesmo sentido seria a Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne.

O Anhangabaú era o cine Pedro II, com filmes de cowboy e comédias de Chico Bóia e de O Gordo e o Magro. O público juvenil vibrava com Tom Mix e Buck Jones, batendo os pés e gritando: "- Aí mocinho!"

E a Praça da Sé era o Santa Helena, que atraía adultos com filmes proibidos para catorze e dezoito anos. A censura, feita no Rio de Janeiro, trazia a assinatura de Mello Matos, juiz de menores que criou as sobrinhas Baby e Branquinha Barroso do Amaral. A primeira se casaria com Guilherme de Almeida, e a segunda, com Assis Chateaubriand. Durante as férias do magistrado, seu assistente Carlos Magalhães Lebeis fazia a censura e assinava os filmes não indicados para nós. Tempos depois, no governo de Armando de Salles Oliveira, a convite de Sylvio Portugal, voltaria para São Paulo e fundaria o Serviço Social do Estado no prédio do antigo Senado, na Praça João Mendes.

Conseguir furar o cerco do porteiro e do guarda-civil em filmes proibidos era aventura para menores que só temiam ser descobertos pelo comissário J. J. Arruda, com quem vim a conviver, muitos anos mais tarde, no gabinete de Aldo de Assis Dias e Arthur Oliveira Costa, inesquecíveis juízes de menores.

O cine Santa Helena funcionava no Palacete Santa Helena (demolido em 1971)

As películas japonesas, com sua atmosfera sombria, podiam ser vistas no Nippon e no Niterói, próximos do Largo da Glória, onde existiu, no século XIX, a Chácara dos Ingleses, em cujo casarão teriam se passado as cenas que inspiraram a Álvares de Azevedo a Noite na Taverna.

Filmes alemães eram exibidos no Ufa, que, posteriormente, passa a chamar-se Art Palácio, na Avenida São João.

Perto dali tremia o "pulgueiro" Avenida, baratíssimo e frequentado pela malandragem das imediações. Malandros que jogavam snooker em cima do cine Paratodos na Santa Ifigênia, ou nos bilhares existentes na Rua D. José de Barros, na 7 de Abril e na Barão de Itapetininga, enquanto boêmios e estudantes confraternizavam em torno das mesas do Ponto Chic e dos balcões do Juca Pato e do Jeca.

Na São João aparecia o cine Broadway, onde se apresentou ao vivo a cantora de tangos Libertad Lamarque interpretando Riendo, Cantando, Vieja Pared del Arrabal.

Em frente ao Sport Club Germânia, no local do Cabaré Imperial, surgiria, na Rua D. José de Barros, o cine Opera.

Em plena Consolação, entre a Rua Araújo, que se chamou, um dia, Beco do Mata Fome, e o solar da família Souza Queiroz, onde funcionou a Rádio América, aparece na década de 1930 o cine Odeon da Cia. Serrador, com suas salas Azul e Vermelha. Odeon das frisas namoradeiras e salões que abrigavam "alucinantes bailes de carnaval". Próximo à Avenida Paulista, nas imediações do futuro Belas Artes, discretamente agonizava o cine Astúrias.

A Paulista, que foi no passado predestinada Rua da Real Grandeza, receberia, no terreno da casa da família Von Büllow, o Edifício Cásper Libero com os cinemas Gazeta e Gazetinha.

Na Rua Augusta, antes da instalação dos cines Majestic e Picolino, e dos cinemas do Conjunto Nacional, somente existia o cine Paulista, no local onde está hoje o Teatro Procópio Ferreira.

Em frente aos plátanos da Praça da República, o República ia se transformando em cinema, rinque de patinação, salão de baile, diretório político e palco de luta livre.

O Largo do Arouche abrigava o Colyseu Paulista na esquina da Rua Duque de Caxias. Alguns quarteirões abaixo, na região do Hotel Comodoro, de Paulo Meinberg, existiu, um dia, o palacete de D. Olívia Guedes Penteado com seu salão modernista. Ao lado, as residências de suas filhas Carolina Silva Telles e Maria Camargo, amigas que lembro com saudade.

Colyseo Paulista com o Baile dos Artistas, explodindo, no primeiro grito de carnaval, as terras do general Arouche ao som do canto de Francisco Alves e Orlando Silva.

Colyseo Paulista

O bairro da Barra Funda guardaria, por muito tempo, a voz de Ramon Navarro no filme O Pagão, que inaugurava, em setembro de 1929, o cine Rosario. Foi dos primeiros celuloides falados que São Paulo conheceu e repetiria The Pagan Love Song na tela do cine Roma, que no futuro viraria mais um rinque de patinação. Acompanhando as mudanças, o cine São Pedro passaria a ser teatro.

Na Rua Sebastião Pereira, antiga Chácara de D. Angélica de Barros, o cine Royal e, mais adiante, o cine Santa Cecília viam passar as gerações de frequentadores.

A Avenida São João, pouco a pouco, ia se transformando na Cinelândia. Deixava de ser a "Prainha", ponto de encontro de artistas e de valentes, para se tornar artéria onde transitavam famílias e namorados em busca de um pouco de ilusão.

Apagavam-se as luzes do Tabu, do Lido, do Tropical, do Maravilhoso e do OK, e se acendiam luminosos que falavam: cine Metro, Broadway, Ritz, Marabá, Marrocos e Ipiranga.

O Ipiranga, com pullman e poltronas para fumantes e o órgão que abria musicalmente as sessões noturnas. Esse cinema, assim como o Art Palácio, foram obras do arquiteto Rino Levi, companheiro de noitadas históricas no Clube dos Artistas e Amigos da Arte, na Rua Bento Freitas.

Tempo de incursões ao Brás, com a massa das cantinas 1040 e Balila coroando matinês do Universo e do Braz Polytheama.

Época em que os seriados ficavam sempre para o "próximo domingo", e o galope dos Bandoleiros do Vale do Fogo e os Perigos de Paulina naufragaram com o submarino do filme alemão Heróis do Mar.

Nesses dias, para não gastar com ingressos as curtas mesadas, a turma costumava penetrar de costas no cine Metro, no momento em que a sessão anterior despejava na Rua dos Timbiras seus frequentadores. Outra proeza que nem sempre dava certo era fazer saltar com um cartão o trinco da porta de saída do cine Bandeirantes e entrar diretamente na sala, depois do apagar das luzes.

A brincadeira terminou quando, numa tarde, com o cinema quase vazio, o lanterninha veio buscar cada um dos cabuladores de aula que acabou trancado na sala do gerente, esperando, temeroso, a chegada dos pais!

Era uma década em que vivíamos cinematograficamente, vestindo os paletós de camurça dos jovens da família do juiz Hardy, amando Greta Garbo e encontrando, às escondidas, com a nudez de Heidy Lamar, em Êxtase.

Ingênua geração de cinemeiros projetados na tela que principiava a sangrar com a chegada da Segunda Grande Guerra.

Texto do livro "Insólita Metrópole - São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim", de Ana Luiza Martins (organizadora) - Ateliê Editorial - 2013. Publicação autorizada pela editora.


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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.