Vejam só, meu avô foi lanterninha de cinema

Por Antonio Ricardo Soriano (Pesquisador de cinema) 

Meu avô descansou. Faleceu por causas naturais. 95 anos! Deixou um exemplo incrível de amor à vida. Até os últimos momentos, queria viver e fazer o que gostava. Entreguei a ele, recentemente, uma cópia do filme "Os Miseráveis", livro que leu por várias vezes e no último dia, no hospital, pediu o jornal para ler. Um homem culto e bem informado. Ranzinza por muitas vezes, mas ninguém é perfeito. Que ele seja mais um "lanterninha" de nossas vidas.
 
Júlio dos Santos, mais conhecido como “Seu Júlio”, pela maioria das pessoas que vivem na Vila Bonilha (Pirituba, São Paulo, SP), foi um dos primeiros moradores do bairro e fundador da Capela, que depois de alguns anos recebeu o nome de Paróquia Nossa Senhora de Fátima. Seu Júlio sempre foi muito atuante na igreja, organizava excursões e romarias, além de participar por muitos anos do Grupo da Terceira Idade, sediado em sua própria casa. Por tudo isso passou a ser muito conhecido no bairro.

Hoje (18/10/2012), meu avô completa 94 anos, ainda assisti muitos filmes e lê vários clássicos da literatura mundial. Sempre me indicou filmes, comentando sobre os grandes atores e atrizes que conhecia, mas de forma engraçada, pois ele sempre acertava o nome dos filmes e artistas, mas pronunciava de forma errada seus nomes. Como dava para entender, nunca o corrigi.


Ele sempre me contou histórias sobre os cinemas que frequentou e, em especial, sobre o cine Nacional (que funcionava na Rua Clélia). Neste cinema, ele foi funcionário e fazia um pouco de tudo, trabalhava na portaria, no atendimento da bombonière, e quando iniciava a exibição dos filmes, ele era o lanterninha. Profissão que tem orgulho de contar, pois sendo lanterninha do cinema, ele podia acompanhar as pessoas até as suas poltronas e reservava lugares mais adequados aos casais de namorados, ganhando assim muitas gorjetas. Conta, também, que após trabalhar durante o dia inteiro na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (antiga São Paulo Railway Company - SPR), ele ia a pé de Pirituba até o cinema, que ficava no bairro da Lapa, caminhada longa... Neste período passou a assistir muitos filmes, recebendo até uma credencial para frequentar outros cinemas da rede (Cia. Cinematográfica Serrador). 

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As memórias do “Seu Júlio” sobre este período são um tanto vagas, pois ele era muito novo, aliás, já se passaram mais de 70 anos... O mais incrível é que, hoje em dia, mantenho um trabalho de pesquisa sobre a história das salas de cinema de São Paulo. Uma grande coincidência, já que fiquei sabendo dessa sua história somente depois de iniciar as vastas pesquisas para o meu blog.

Nesta foto, a emoção do meu avô Júlio em ganhar filmes do seu neto Ricardo.

Agradeço meu avô por todas as inspirações que me serviram de ideias, e mais, pelo seu maior exemplo: amar a vida e lutar sempre por ela.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.