Entrevista cedida ao site Pop4

Salas de cinema são parte da história

Por Nanda Rovere (Historiadora e estudante de jornalismo. Apaixonada por cultura, pesquisa e escreve sobre teatro desde a década de 90)

O cinéfilo-pesquisador Antonio Ricardo Soriano concede entrevista ao Pop4.

Na década de 40 e 50, entre as Avenidas São João, Ipiranga e Duque de Caxias, localizavam-se as salas de cinema que formavam a Cinelândia Paulistana. Para a arquiteta Paula Santoro, a Cinelândia Paulista foi parte da construção de uma imagem cosmopolita que hoje se tem de São Paulo: "Simboliza um momento onde havia uma articulação entre planejamento urbano e arquitetura, planejamento urbano e programa dos edifícios, que há muito perdemos. Agora, quem dita o que se constrói é o mercado e o Estado ‘corre atrás’ dos espaços que restam para fazer os equipamentos que precisa, e ainda paga caro por isso", afirma.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a produção americana ganha força e a abertura de novas salas na capital paulista impulsiona a vida cultural de seus habitantes. As salas eram luxuosas e as mais elegantes da capital. Sair para as sessões de cinema exigia traje a rigor. Os preços eram diversos e os filmes para todos os gostos. Os cinemas tinham salas lotadas, como hoje acontece nos shoppings. Durante 30 anos vimos a era de ouro do cinema em São Paulo.

Nas décadas de 70 e 80, há a decadência do centro e as grandes salas de rua passam por especulação imobiliária. As que não fecharam se transformaram em cines eróticos ou foram vendidas às igrejas evangélicas. Existem salas que sobreviveram à tradição de estar na rua, como o Espaço Itaú de Cinema Augusta, na Rua Augusta.

Cinemas como o Dom José, na Rua Dom José de Barros, o Windsor, na Av. Ipiranga, e o Palácio do Cinema, na Av. Rio Branco, que não conseguiram sobreviver com a decadência do centro, mas conseguem um bom público para os filmes de sexo explícito, são os resquícios históricos de um passado em que a vida acontecia na nobre região central da cidade.

Ações de revitalização da região central, projetadas pela iniciativa privada, governo e organizações não governamentais, preveem a reforma de cinemas tombados e sua transformação em espaços públicos de espetáculos.

Em outubro do ano passado, o Secretário Municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, deu o primeiro passo para a concretização desse projeto, anunciando a desapropriação dos cinemas Art Palacio, Ipiranga e Marrocos. Não sabemos, no entanto, quanto tempo pode levar esse processo e se o resultado será positivo. O Art Palacio pode virar casa de shows e musicais, o local está sendo desapropriado pela Prefeitura e a sala voltará a fazer parte da vida cultural da capital. É esperar para ver.

O pesquisador Antonio Ricardo Soriano mantém um blog no qual preserva a história dos cinemas e contribui para que o cidadão se conscientize que preservá-los é preservar parte de nossa cultura.
Vale a pena visitar: http://salasdecinemadesp.blogspot.com. O blog reúne uma coletânea de textos e fotos das salas de cinema antigas e atuais. Um acervo ímpar sobre parte da história dos antigos cinemas de rua.
Nesta entrevista, Soriano fala sobre como surgiu a ideia de criar o blog e nos dá informações e opiniões importantes, sobre a história das nossas salas de cinema e da nossa cultura:

Nanda Rovere - Como surgiu a ideia do blog? O que pode destacar no conteúdo que está disponível nele?
Antonio Ricardo Soriano - A ideia surgiu da saudade que tenho de um cinema em especial, o cine Comodoro. Este cinema é o destaque, sendo a principal homenagem do blog. O Comodoro se estivesse funcionando até hoje seria o melhor cinema de São Paulo, em termos de qualidade de exibição e som. As salas de cinema de hoje são confortáveis, mas muito pequenas. As telas são menores e, na maioria delas, o som é fraco. O som sendo baixo e mal distribuído na sala, você acaba ouvindo o ruído de outras pessoas, como conversas, barulho de embalagens e da pipoca, tirando a atenção das pessoas durante a exibição do filme. A plateia do Comodoro tinha mais de 1000 lugares, incluindo o balcão superior (usada, principalmente, pelos casais de namorados), a projeção era em 70 mm, pois a tela era gigantesca e o som, em 6 canais, tinha potência e qualidade nunca vistas até hoje.

NR - Chegou a frequentar salas do centro de São Paulo? Quais?
ARS - Sim, muitas. Comodoro, Cinespacial, Regina, Ritz (São João), Olido, Paissandu, Ipiranga, Marabá, Metropole, Ouro e outros.

NR – Neste sentido, qual a importância das mesmas na história de São Paulo e do nosso cinema?
ARS - O valor das antigas salas é algo que a maioria dos brasileiros não se preocupa: a importância do Patrimônio Histórico Cultural do local. Tivemos este descaso, recentemente, com o cine Belas Artes. Nos EUA e na Europa, muitos cinemas já foram demolidos como os daqui, mas muitos foram conservados, restaurados e funcionam até hoje. Já que não tenho muitos bons exemplos em São Paulo, procuro destacar reformas e restaurações de cinemas em outros Estados do País e comecei a postar bons exemplos de outros Países.

NR - O que pensa sobre o processo de revitalização do centro? O tombamento trará benefícios aos cinemas?
ARS - Pelas informações que tenho, os poucos cinemas tombados no centro, provavelmente, não funcionarão como cinema. Um será teatro, outro casa de espetáculos, etc. Isso é péssimo! O cine Ipiranga, por exemplo, foi desenhado pelo renomado arquiteto Rino Levi, que fez estudos detalhados para que o Ipiranga fosse um cinema majestoso. Estudou o acesso do público, a acústica, tudo para que o local fosse um cinema e não um teatro. No blog, tem uma postagem homenageando Rino Levi.

NR - Qual a sua opinião sobre a reforma do Marabá?
ARS - Foi uma ideia maravilhosa de uma grande empresária, que pôde arriscar. Não fui conhecer o cinema, pois não tenho vontade de ir ao centro, por ser ainda um local muito perigoso e frequentado por drogados, mendigos, etc.

NR - Como vê as salas de cinema hoje, quanto à qualidade técnica e de programação?
ARS - A localização é boa. Temos restaurantes, lanchonetes, sorveterias, segurança, estacionamento, mas…, como já disse, a maioria das salas são muito pequenas, e o principal, as telas também são pequenas e o som é muito simples. Alguns cinemas, como o Espaço Itaú de Cinema Pompéia possuem excelente qualidade de som, mas é um raro exemplo. Neste complexo, só a sala IMAX possui tela grande, mesmo assim, menor que as salas IMAX de outros países. A programação de lá, também, é muito interessante, misturando produções europeias com grandes sucessos de Hollywood. Os exibidores estão pensando demais em lucros, pois já percebi que bons filmes estão saindo direto em DVD, como "Decisões Extremas", com o grande astro Harrison Ford.

NR - Cinemas como Dom José e Windsor entraram na grade de programação da Virada Cultural. Em sua opinião, isso contribui para que o valor histórico desses locais seja valorizado?
ARS - Os cines Dom José e Windsor deveriam conseguir um patrocínio ou uma sociedade com a Cinemateca Brasileira ou outra organização cultural. Chega de filmes pornô! Não adianta nada passar filmes decentes apenas por uma noite. Falta coragem e ousadia para o dono destes cinemas. Eles estão bem conservados e possuem boa localização e uma linda arquitetura, portanto, mereciam voltar com uma programação de filmes de arte ou até mesmo, reprises.

NR - Qual tipo de filme você aprecia?
ARS - Gosto de filmes que encantam, que nos fazem bem e que nos trazem uma boa mensagem ou lição de vida. Tanto o cinema americano como o Europeu nos encantam com boas histórias, belas paisagens, bons atores, bons efeitos especiais, etc. Um bom exemplo de um filme recente e bem feito: "O Segredo dos seus Olhos", de , com Ricardo Darin.

NR - Gostaria de acrescentar alguma informação?
ARS - Os antigos cinemas de bairro foram de grande importância para os paulistanos, principalmente aqueles que não tinham condições de ir aos cinemas do centro, que exigiam, até mesmo, trajes de luxo para entrar. A prefeitura deveria instalar um cinema público em cada grande bairro de São Paulo, aproveitando espaços como AMA’s, escolas, prédios abandonados, etc. O ingresso poderia ser barato e a programação seria de clássicos (com a ajuda da Cinemateca Brasileira) ou de filmes que já saíram de cartaz. O antigo cine Gemini reprisava filmes atuais e tinha um público razoável. Afinal, depois de serem exibidos em todos os shoppings de São Paulo, para onde vão parar os rolos de filmes? Eles seriam muito bem reaproveitados nos novos cinemas de bairro, que seriam um ótimo exemplo de inclusão social e cultural. Pessoas de baixa renda, idosos e deficientes físicos poderiam, com maior facilidade, ter o prazer de assistir à bons filmes bem próximo de casa. Nos anos 50, 60 e 70, só nos bairros próximos de minha casa (Pirituba e Freguesia do Ó) haviam quatro ótimos cinemas.

Texto publicado em 24/05/2011 no site Pop4 e revisado em 30/03/2012.

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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.