Livro: No tempo das matinês – Emoções no cinema de bairro

Este livro tem como propósito principal apresentar um relatório feito por dois amigos. Embora só viessem a se conhecer na fase adulta, em suas infâncias e juventude, porém, comungaram das mesmas emoções, que as matinês proporcionavam no final dos anos 30 até meados dos anos 50.

O doce hábito da matinê
“No decorrer dos anos 40, principalmente os cinemas de bairro (chamados de poeiras), que ofereciam aos domingos e feriados sessões vesperais, também conhecidas como matinês, viviam seus momentos de glória. A cada ano que passava novas salas eram inauguradas, para se juntar as já existentes nos mais diversos pontos da cidade de São Paulo. Estes cinemas, bem mais modestos, com poltronas de madeira, cujo sistema de ventilação e renovação de ar não existia, tinham porém um público fiel entre os moradores das redondezas que normalmente lotavam suas sessões, fossem elas vesperais ou soirees.”
“Era uma forma que pessoas de baixos recursos financeiros dispunham para poder assistir também aos filmes exibidos nos cinemas lançadores, cujos preços eram bem mais caros, embora com algumas semanas de atraso.”
“Apesar de quase todos eles disporem em média de mil lugares, nos fins de semana, por falta de opção ou imaginação, multidões de adultos e crianças compareciam lotando as matinês desses cinemas. Por ser o meio de diversão mais barato, chegavam a lotar muitas vezes as salas de projeção acima do limite, forçando muitos a se sentarem no chão ou nos degraus das escadas. A programação destas matinês era quase sempre voltada para o gosto das crianças, com a exibição de um ou mais westerns, capítulos de seriado, comédias, policiais ou uma nova aventura de Tarzan. Quem conseguia entrar, depois de agüentar uma fila quilométrica para comprar o ingresso, não parecia se importar muito com as lamentáveis condições de muitas dessas casas de espetáculos. O que valia mesmo era ver como o “mocinho”, amarrado nos trilhos pelo vilão no episódio anterior, iria se salvar do trem que vinha em disparada.”
“Paralelamente a satisfação que nos causava assistir os westerns e seriados durante as matinês, estava o comércio de “gibis”, que acontecia nas portas desses cinemas, momentos antes do início da sessão. A garotada já sabia que além do dinheiro para o ingresso, tinha que sobrar alguns tostões para os gibis.”
“Tudo isso pode parecer excêntrico para as crianças de hoje que cresceram assistindo televisão e filmes de DVD em casa, mas naquela época, a grande opção de diversão da garotada era mesmo os faroestes e filmes seriados.”
“Para uma família da classe média ir aos grandes e luxuosos cinemas do centro de São Paulo, nos anos 40, o pai colocava terno e gravata (obrigatórios para a entrada em determinados cinemas) e a mãe colocava um dos seus melhores vestidos. A criançada já ficava pronta e entusiasmada com a idéia de ver os desenhos animados que precediam os filmes. Depois do cinema, a família passeava no centro da cidade, para ver vitrines de lojas e tomar sorvete, antes de voltar para casa. Este ritual se repetia varias vezes durante o mês. Segundo estatísticas da época, o paulistano ia ao cinema pelo menos 15 vezes ao ano.”
“Muitos cinemas do centro da cidade funcionavam com seis sessões diárias: às 12, 14, 16, 18, 20 e 22 horas. Com cartazes luminosos e letreiros fulgurantes, as salas de exibição daquele tempo tinham uma concepção quase hollywoodiana, além de serem bem maiores. Quase todos tinham capacidade para acomodar mais de mil espectadores. O “Paissandu” tinha, mais ou menos, dois mil lugares e o cine “Universo”, que nem era no centro, tinha mais de quatro mil. Eram cinemas lançadores, freqüentados por grande parte da elite paulistana e ficavam no centro da cidade, numa zona conhecida como a Cinelândia.”
“Mas não era só na capacidade que os cinemas de antigamente eram diferentes. Muitos deles tinham no seu interior estátuas e espelhos, além da bela arquitetura e muito conforto. Infelizmente hoje em dia eles só existem na memória de seus ex-freqüentadores.”
Trechos do capítulo “Os Cinemas” do livro “No tempo das matinês – Emoções no cinema de bairro”, de Diamantino da Silva, Umberto Losso e Kendi Sakamoto Editora Laços – 2007
Para adquirir este livro, entre em contato com Kendi Sakamoto - E-mail: kendi.sakamoto@mandic.com.br Telefone: (11) 8175.5288
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.